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01 de fevereiro de 2010
Texto - um retrato de quem escreve
Autor(a): Terezinha Machado
Toda a teoria que se possa trabalhar nos cursos de Formação de Professores não será suficiente para levar o futuro a professor a ter idéia da riqueza desta tarefa. Tarefa que exigirá do aluno uma sequência lógica de raciocínio, uma boa base vocabular, conhecimento da estrutura da língua materna, além de possuir criatividade para elaboração do texto.
Para essa tarefa, além da teoria, o que precisa este futuro professor conhecer para que possa propiciar a seus alunos uma chance verdadeira de que gostem da escrita e da leitura?
Escrever e ler, ler e escrever. Uma coisa começa na outra e volta ao ponto inicial.
Penso, estruturo mentalmente o meu discurso, escolho pontos do assunto a serem abordados. Estando o pensamento estruturado, começo a aventura da escrita, que é ao mesmo tempo uma atividade de leitura. Durante todo o tempo que escrevo, estou relendo o que escrevi. Dessa forma, a escrita, e repetidas leituras do texto em construção irão dando a forma a um pensamento, através da seleção vocabular.
Dita desta forma, parece que há etapas que sendo colocadas em ordem de execução levarão os alunos a escreverem seus textos com eficiência. Na verdade, não há uma receita de “bolo” para se ensinar a ler e a escrever. Entretanto, é possível formar os futuros professores com conhecimentos metodológicos, didáticos, além de uma grande sensibilidade que o torne um ser afetivo, em um sentido ampliado, não apenas atencioso e carinhoso com o aprendente, mas também aquele que se coloca na situação como um ser que afeta e é afetado. A afetividade é o motor que aciona o emocional para uma aprendizagem prazerosa, tranquila, sem o medo castrador do erro.
Mas não é isso que acontece geralmente. Para se passar adiante um conhecimento, liderar uma atividade é necessário que haja uma prática de toda a teoria envolvida no processo.
Se no curso de formação de Professor não houver um lugar especial para a teoria e prática, em conjunto, haverá uma bifurcação perigosa. A práxis pedagógica, apresentada através da dialogicidade, é que começa a dar corpo a uma faceta importantíssima na formação deste profissional que trabalhará com um material muito especial que é a criança que se encontra na fase da consolidação da alfabetização.
PROCURANDO SENTIDO NA CONSTRUÇÃO DO TEXTO
Vamos nos aproximar da teoria de uma autora bastante conhecida nos meios acadêmicos, especialista na questão da escrita, trata-se de Ingedore Villaça Koch que tem vários livros escritos sobre o tema. Alguns pontos são apontados por ela como importantes, muitos deles fundamentados nas escolas psicológica e psicolinguística soviéticas, que por sua vez, baseiam-se em Vigotsky. Seguindo um estudo de Leont’ev, Ingedore aponta em seu livro “O texto e a construção dos sentidos”, alguns destes aspectos fundamentais para qualquer atividade humana:
“1. existência de uma necessidade/interesse;
2. estabelecimento de uma finalidade;
3. estabelecimento de um plano de atividade, formado por ações individuais;
4. realizações de operações específicas para cada ação, de conformidade com o plano prefixado;
5. dependência constante da situação em que se leva a cabo a atividade, tanto para a planificação geral como para a realização das ações e a possível modificação do processo no decurso (troca das ações previstas por outras, de acordo com mudanças produzidas na situação).”
Essa reflexão geral sobre a atividade humana, aplica-se perfeitamente à atividade da construção de um texto pela criança.
Ela necessita estar estimulada para escrever, o professor deve ter conversado com seus alunos sobre a proposta da escrita do texto. Não se pode mais imaginar, ao fim da primeira década do século XXI, que algum professor possa apresentar uma atividade de escrita de um texto apenas dando-lhe o título e o número de linhas desejado, muito menos, achar que relembrar que todo texto possui início, meio e fim, sejam “dicas” suficientes para que se estabeleçam condições favoráveis para a atividade.
A criança precisa sentir que a proposta de trabalho tem significação para ela, precisa trocar ideias sobre o tema, com o professor e outros colegas, por vezes leituras de textos sobre o mesmo tema podem ser oportunas.
A criança necessita trabalhar bem a oralidade para que tenha tempo de organizar seu pensamento para a execução da tarefa.
Vejamos alguns fatores que interferem na construção do ato verbal:
1. Motivação: não é apenas um motivo, a criança não se interessa apenas por um motivo a cada vez que é solicitada a falar ou escrever. Geralmente apresenta-se um conjunto de motivos, embora possamos destacar um foco entre eles.
2. Grau de domínio da língua: à cada etapa da aprendizagem há um determinado nível de domínio a ser esperado pelo professor. Não há como estabelecer regras rígidas gramaticais para crianças recém-alfabetizadas.
3. Planejamento da tarefa-ação: é necessário que o professor se dê conta das inúmeras funções cerebrais, motoras e viso-motoras que são imbricadas na realização de uma tarefa. Importante lembrar que, ao invés da crença da teoria tradicional, reprodutivista e conteudista, que investem na reprodução de tarefas, as crianças pensam sobre a leitura e escrita levantando hipóteses sobre como se lê e escreve. A criança fixa-se em uma de suas hipóteses e lança mão de toda a sua bagagem de conhecimento para escrever ou ler. Daí, este sujeito, construtor de sua aprendizagem, idealiza o seu plano de ação para a escritura do texto, mediante o uso das estruturas linguísticas que já possui. O professor deve levar em conta este esforço inicial para que possa intervir de maneira habilidosa, sem invadir o espaço da escrita do aluno. É nesse momento da relação afetiva com o aluno que o professor poderá tornar-se um mediador positivo ou um elemento que derrube a hipótese da criança, fazendo-a a retroceder em suas hipóteses de escrita por ainda se sentir insegura.
O TEXTO COMO RETRATO QUE ESPELHA A VISÃO DE MUNDO DO AUTOR.
Costumava dizer aos meus alunos de Redação, de cursos preparatórios para o
Vestibular, que o texto nada mais é que um retrato de quem verdadeiramente ele é.
O professor que corrigirá seu texto, terá a possibilidade de vislumbrar seus valores de vida, sua cultura, seus gostos, a coerência de seus argumentos, a estrutura de seus pensamentos passados ao papel.
Enfim, nada escapará a um bom analista, que poderá até levantar hipóteses de como é a sua personalidade.
Ao lermos um texto, estamos lendo os pensamentos de alguém, que se dispôs a colocá-los no papel. Pode mentir? Enganar? Por certo que sim. As pessoas costumam usar máscaras sociais para se relacionarem com um mundo que temem.
Voltando aos nossos pequenos leitores- escritores, é necessário um outro olhar sobre suas produções textuais, as crianças necessitam de uma correção que seja mais para orientação do que para avaliação e cobrança. Escrever deveria ser encarado como prazer, uma grande distração e não uma imposição de uma escola que se empenha em colocar “tarefas e mais tarefas”, fazendo do cotidiano da criança um pesadelo do qual ela tenta se livrar, querendo faltar às aulas, escondendo trabalhos de casa para sobrar tempo para o prazer do entretenimento com o que realmente gosta de fazer, usar a Internet, assistir vídeos e televisão, além dos videogames.
Quando a escola conseguirá envolver as novas tecnologias em prol de um envolvimento prazeroso do aluno com a educação?
Quando este dia chegar, o aluno não precisará de estímulos para escrever, sua satisfação em comunicar suas ideias será o principal suporte para o exercício da escrita.
Neste dia teremos, verdadeiramente, uma Escola Aberta, democrática e eficiente.
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Para essa tarefa, além da teoria, o que precisa este futuro professor conhecer para que possa propiciar a seus alunos uma chance verdadeira de que gostem da escrita e da leitura?
Escrever e ler, ler e escrever. Uma coisa começa na outra e volta ao ponto inicial.
Penso, estruturo mentalmente o meu discurso, escolho pontos do assunto a serem abordados. Estando o pensamento estruturado, começo a aventura da escrita, que é ao mesmo tempo uma atividade de leitura. Durante todo o tempo que escrevo, estou relendo o que escrevi. Dessa forma, a escrita, e repetidas leituras do texto em construção irão dando a forma a um pensamento, através da seleção vocabular.
Dita desta forma, parece que há etapas que sendo colocadas em ordem de execução levarão os alunos a escreverem seus textos com eficiência. Na verdade, não há uma receita de “bolo” para se ensinar a ler e a escrever. Entretanto, é possível formar os futuros professores com conhecimentos metodológicos, didáticos, além de uma grande sensibilidade que o torne um ser afetivo, em um sentido ampliado, não apenas atencioso e carinhoso com o aprendente, mas também aquele que se coloca na situação como um ser que afeta e é afetado. A afetividade é o motor que aciona o emocional para uma aprendizagem prazerosa, tranquila, sem o medo castrador do erro.
Mas não é isso que acontece geralmente. Para se passar adiante um conhecimento, liderar uma atividade é necessário que haja uma prática de toda a teoria envolvida no processo.
Se no curso de formação de Professor não houver um lugar especial para a teoria e prática, em conjunto, haverá uma bifurcação perigosa. A práxis pedagógica, apresentada através da dialogicidade, é que começa a dar corpo a uma faceta importantíssima na formação deste profissional que trabalhará com um material muito especial que é a criança que se encontra na fase da consolidação da alfabetização.
PROCURANDO SENTIDO NA CONSTRUÇÃO DO TEXTO
Vamos nos aproximar da teoria de uma autora bastante conhecida nos meios acadêmicos, especialista na questão da escrita, trata-se de Ingedore Villaça Koch que tem vários livros escritos sobre o tema. Alguns pontos são apontados por ela como importantes, muitos deles fundamentados nas escolas psicológica e psicolinguística soviéticas, que por sua vez, baseiam-se em Vigotsky. Seguindo um estudo de Leont’ev, Ingedore aponta em seu livro “O texto e a construção dos sentidos”, alguns destes aspectos fundamentais para qualquer atividade humana:
“1. existência de uma necessidade/interesse;
2. estabelecimento de uma finalidade;
3. estabelecimento de um plano de atividade, formado por ações individuais;
4. realizações de operações específicas para cada ação, de conformidade com o plano prefixado;
5. dependência constante da situação em que se leva a cabo a atividade, tanto para a planificação geral como para a realização das ações e a possível modificação do processo no decurso (troca das ações previstas por outras, de acordo com mudanças produzidas na situação).”
Essa reflexão geral sobre a atividade humana, aplica-se perfeitamente à atividade da construção de um texto pela criança.
Ela necessita estar estimulada para escrever, o professor deve ter conversado com seus alunos sobre a proposta da escrita do texto. Não se pode mais imaginar, ao fim da primeira década do século XXI, que algum professor possa apresentar uma atividade de escrita de um texto apenas dando-lhe o título e o número de linhas desejado, muito menos, achar que relembrar que todo texto possui início, meio e fim, sejam “dicas” suficientes para que se estabeleçam condições favoráveis para a atividade.
A criança precisa sentir que a proposta de trabalho tem significação para ela, precisa trocar ideias sobre o tema, com o professor e outros colegas, por vezes leituras de textos sobre o mesmo tema podem ser oportunas.
A criança necessita trabalhar bem a oralidade para que tenha tempo de organizar seu pensamento para a execução da tarefa.
Vejamos alguns fatores que interferem na construção do ato verbal:
1. Motivação: não é apenas um motivo, a criança não se interessa apenas por um motivo a cada vez que é solicitada a falar ou escrever. Geralmente apresenta-se um conjunto de motivos, embora possamos destacar um foco entre eles.
2. Grau de domínio da língua: à cada etapa da aprendizagem há um determinado nível de domínio a ser esperado pelo professor. Não há como estabelecer regras rígidas gramaticais para crianças recém-alfabetizadas.
3. Planejamento da tarefa-ação: é necessário que o professor se dê conta das inúmeras funções cerebrais, motoras e viso-motoras que são imbricadas na realização de uma tarefa. Importante lembrar que, ao invés da crença da teoria tradicional, reprodutivista e conteudista, que investem na reprodução de tarefas, as crianças pensam sobre a leitura e escrita levantando hipóteses sobre como se lê e escreve. A criança fixa-se em uma de suas hipóteses e lança mão de toda a sua bagagem de conhecimento para escrever ou ler. Daí, este sujeito, construtor de sua aprendizagem, idealiza o seu plano de ação para a escritura do texto, mediante o uso das estruturas linguísticas que já possui. O professor deve levar em conta este esforço inicial para que possa intervir de maneira habilidosa, sem invadir o espaço da escrita do aluno. É nesse momento da relação afetiva com o aluno que o professor poderá tornar-se um mediador positivo ou um elemento que derrube a hipótese da criança, fazendo-a a retroceder em suas hipóteses de escrita por ainda se sentir insegura.
O TEXTO COMO RETRATO QUE ESPELHA A VISÃO DE MUNDO DO AUTOR.
Costumava dizer aos meus alunos de Redação, de cursos preparatórios para o
Vestibular, que o texto nada mais é que um retrato de quem verdadeiramente ele é.
O professor que corrigirá seu texto, terá a possibilidade de vislumbrar seus valores de vida, sua cultura, seus gostos, a coerência de seus argumentos, a estrutura de seus pensamentos passados ao papel.
Enfim, nada escapará a um bom analista, que poderá até levantar hipóteses de como é a sua personalidade.
Ao lermos um texto, estamos lendo os pensamentos de alguém, que se dispôs a colocá-los no papel. Pode mentir? Enganar? Por certo que sim. As pessoas costumam usar máscaras sociais para se relacionarem com um mundo que temem.
Voltando aos nossos pequenos leitores- escritores, é necessário um outro olhar sobre suas produções textuais, as crianças necessitam de uma correção que seja mais para orientação do que para avaliação e cobrança. Escrever deveria ser encarado como prazer, uma grande distração e não uma imposição de uma escola que se empenha em colocar “tarefas e mais tarefas”, fazendo do cotidiano da criança um pesadelo do qual ela tenta se livrar, querendo faltar às aulas, escondendo trabalhos de casa para sobrar tempo para o prazer do entretenimento com o que realmente gosta de fazer, usar a Internet, assistir vídeos e televisão, além dos videogames.
Quando a escola conseguirá envolver as novas tecnologias em prol de um envolvimento prazeroso do aluno com a educação?
Quando este dia chegar, o aluno não precisará de estímulos para escrever, sua satisfação em comunicar suas ideias será o principal suporte para o exercício da escrita.
Neste dia teremos, verdadeiramente, uma Escola Aberta, democrática e eficiente.
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