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30 de abril de 2009
A pedagogia construída no dia-a-dia da sala de aula
Autor(a): Alessandra Moura Bizoni(FOLHA DIRIGIDA)
29/04/2009
"Ser jovem é descobrir-se a cada dia". A citação, presente na obra 'Juventude - uma luz que transcende o olhar', é também um lema para a organizadora do livro, a professora Mírian Paura, titular da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenadora do Núcleo de Pesquisa Juventude, Valores e Educação. A cada aula no programa de pós-graduação e também no curso de Pedagogia, Mírian Paura reconstrói a sua prática pedagógica.
Ex-aluna do Instituto de Educação, recentemente a educadora emocionou colegas com a publicação de um texto, contando como foram os "Anos Dourados da Educação". Até hoje, a professora guarda a paixão pelo magistério, que busca transmitir a seus alunos.
Em entrevista à FOLHA DIRIGIDA, a educadora dá uma verdadeira aula sobre o magistério. Trata da formação dos docentes, das estratégias para ampliar o capital cultural dos alunos, das avaliações aplicadas na rede pública e também da relação aluno/professor.
Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Juventude, Valores e Educação, Mírian Paura chama a atenção para a forte influência dos meios de comunicação sobre o comportamento da juventude. "Um dos fatores mais marcantes é a mídia, que tem uma força muito maior do que o que está na sala de aula ou dentro de casa", destaca a educadora.
Aos governantes, a titular da Faculdade de Educação dá um recado: destaca a necessidade da presença de orientadores educacionais nas escolas. "Presidindo hoje a Associação de Orientadores Educacionais do Rio de Janeiro posso dizer que, quase todas as escolas particulares de qualidade têm um orientador educacional. Quase todas as escolas confessionais têm um orientador educacional. O orientador é aquele professor que faz pensar diferente", completou Mírian.
Recentemente, a srª. publicou um texto demonstrando afeto e agradecimento por ter estudado no Instituto de Educação. A srª acredita que os estudantes de hoje poderão fazer o mesmo no futuro, com relação a suas escolas?
Mírian Paura - Gostaria de dizer que foi uma satisfação enorme ter escrito esse texto sobre o Instituto, cuja repercussão me surpreendeu. Acredito que algumas escolas ainda têm essa relação bem estreita entre professor e aluno. Eu não diria que todas têm. Precisamos desses laços para motivar os alunos. Hoje, uma das principais razões da evasão escolar é que os jovens não se sentem motivados, comprometidos com a escola. De um modo geral, eu vejo escolas particulares criarem grandes redes aluno/escola e aluno/ professor.
E na rede pública, isso não acontece?
A rede pública não cria mais isso. Eu não vejo mais o estreitamento de laços, como se via antigamente. Voltando ao Instituto de Educação, havia orgulho em usar aquele uniforme; havia orgulho de cantar o hino do colégio. Até hoje, em nossas reuniões, cantamos o nosso hino. Então, determinadas partes são símbolos para a integração com esses professores. E eu não vejo isso hoje. Esse tipo de relação ainda é encontrada em algumas escolas públicas diferenciadas, como os Colégios de Aplicação, por exemplo. Os alunos gostam de ser alunos de lá e os professores também gostam de trabalhar lá. É uma escola pública meio particular dentro do ponto-de-vista da organização. São os Colégios de Aplicação e o Colégio Pedro II. Ainda há uma terceira escola, mas que, pela suas características específicas, eu não coloco nesse grupo. É o Colégio Militar, que também é uma escola pública, mas quem o procura, procura por outros interesses.
A relação dos jovens com os professores e com o processo educacional em si mudou muito?
A relação dos jovens com os professores mudou totalmente. Aliás, o relacionamento do jovem com outras pessoas, pai, mãe, irmãos e professores, mudou também. É uma relação muito mais de igual para igual do que de jovens para outras gerações. É muito comum hoje vermos jovens que quase fazem papéis de pais; e pais fazendo papéis de filhos. Essa inversão se dá em vários momentos.
Quais são os principais fatores que levaram a essa mudança?
Um dos fatores mais marcantes é a mídia, que tem uma força muito maior do que o que está na sala de aula ou dentro de casa. O jovens se identificam com os modelos apresentados na comunicação e com eles fazem um registro de um novo posicionamento diante dessa realidade. Os jovens têm uma linguagem própria. Não estou me referindo apenas à gíria. Uma das falas que os jovens mais usam hoje em dia é "beleza". Tudo é "beleza". A beleza hoje tem uma dimensão muito grande para esta geração. Fora que o jovem utiliza no seu dia-a-dia a linguagem adquirida na
internet: o "não" é "n"; beijos é "bjs"; abraço é "abç" e por aí vai.
Quais são os traços mais marcantes dessas transformações?
O relacionamento. Hoje, mais do que nunca, o jovem almeja aquele momento de sucesso, de fama... Estão aí programas da televisão que são demonstrativos dessa busca. Esse jovem tem uma imediaticidade, o manhã não é amanhã, o amanhã começa hoje. Outra coisa é uma preocupação muito maior do que se pensa com o seu em torno. O jovem não está tão ligado apenas a si e a ao seu grupo, está ligado a questões do seu meio, da sua sociedade. Só que não é com a mesma intensidade, com a mesma preocupação, por exemplo, que o jovem de 68, que tinha na política a sua arma mais poderosa. Hoje, não se encontra mais esse afã de lutar.
E quais são os ideais dos jovens hoje?
As pesquisas que tenho feito demonstram a busca por uma certa estabilidade financeira. No curso de Pedagogia, onde atuo, por exemplo, os alunos consideram o curso importante. Mas eu queria mais: eu queria que eles se apaixonassem por essa área de educação, que se entregassem, que mergulhassem. E essa realização encontramos com mais facilidade, por exemplo, quando o jovem escolhe principalmente aquela tríade: Engenharia, Medicina e Direito. Os alunos desses cursos são mais apaixonados. Aí vem a grande pergunta: esses têm oportunidade de escolha, podem fazer essa opção. E aqueles que não têm? Aí está a beleza do nosso trabalho como educadores. É propiciar que esses jovens tenham uma luz no fim do túnel que não seja apenas o em torno dele, principalmente para aqueles de baixa renda. Essa é minha grande preocupação como educadora. O que eu faço é para ajudar esses jovens a ter no dia de amanhã, não uma forma de ganhar dinheiro e de sustento, mas um caminho que possa lhe abrir outras fontes, outros abrigos para mostrar o novo tempo para eles.
E qual estratégia a srª desenvolveu com eles?
À guisa do Governo Federal, eu criei o meu PAC. No meu PAC, o P é de pensar, o A de argumentar e C é de criar. Eu tenho que levar esses meus jovens a pensar. E pensar é refletir. Não é automatizar o que outro disse, ou pensar por que isto deu na televisão e eu estou pensando a mesma coisa. E busco na Filosofia todo um respaldo para trabalhar dessa forma. Todas as minhas aulas da graduação, eu começo trazendo para a sala de aula um acontecimento, pode ser algo da televisão, da rua, da cidade; os alunos devem trazer algo. Depois, eles devem pensar sobre aquilo: se está certo, está errado; se gostaram, se não gostaram; que valor eles atribuíram a esse acontecimento. Essa é a reflexão maior. Em seguida, vem o momento do A, de argumentar — buscar uma reflexão mais profunda. "Por que você achou aquela cena da televisão ruim?". "Ah, eu não gostei" — isso não é argumentar. Argumentar é aprofundar aquela questão, ir buscar subsídios. E, por fim, o C de criar. Trata-se daquilo que se cria como alternativa, como estratégia. Esse C de criar é sensacional porque o jovem, hoje, cria coisas incríveis, principalmente no ramo da informática. Ora, se eu tenho os jovens que criam essas alternativas, estratégias, mais uma vez eu volto para o papel da Educação. O que nós, educadores, estamos fazendo diante disso? Eu não quero constatar, não quero apenas diagnosticar, não quero apenas identificar, quero saber: "face a isso, o que que eu faço?".
Atualmente, na novela Caminho das Índias, exibida pela Rede Globo, a personagem Berê, vivida por Sylvia Buarque, é uma professora que enfrenta problemas com alunos adolescentes. O que a srª achou desse episódio ser mostrado numa novela?
Meu sonho é de mandar um e-mail para a Glória Perez. Além de cumprimentá-la pelo trabalho, eu queria dizer o seguinte: cara amiga Glória, caso você queira dar a este jovem e a esta professora, um final feliz — que não seja protagonizado nem pelo aluno sendo preso, nem pela professora largando o magistério — coloque nessa escola uma pessoa da maior importância: o orientador educacional, que é o mediador, que é o articulador entre essa situação e esse mundo lá fora. A repercussão desse episódio da novela foi enorme, pesou muito.
O que um professor, que enfrenta situação similar, deve fazer?
É óbvio que há caminhos punitivos como: "Você vai ser suspenso", "Você só entra aqui agora com o seu pai e com sua mãe", "Se repetir, você vai ser expulso da escola". Estes são caminhos fáceis, Glória Perez. Porém, eu quero mais, eu quero mudar esse personagem. Eu quero fazer com que esse sujeito seja capaz de se dar conta do que ele faz. Ele deve perceber: "Estou perdendo tempo jogando estojo na professora, eu não estou construindo nada. Eu só estou querendo é ficar famoso dentro do meu grupo".
Os professores se identificaram muito com esta situação?
Muito. Evidentemente que a situação não acontece com o professor que tem um bom relacionamento com a turma. O aluno quer que o professor seja professor. O jovem quer que a mãe seja mãe, e que o pai seja pai. Ele adora esses pais modernosos, mas quer a figura do pai, a figura da mãe, a figura do professor. O professor, para ele, é um modelo. E quando há bom relacionamento, eles não são capazes de fazer isso, pelo contrário, se alguma coisa vai além do inocente, eles são capazes de pedir desculpas. Voltando ao personagem da novela, eu não diria que é só falta de educação do garoto, que pelo quadro apresentado parece muito mimado pelo pai. Eu não vejo só isso. Eu vejo também muitos problemas na professora, com todo respeito, que ainda não conseguiu conquistar os alunos. Se a Glória Perez ler essa matéria, vai dizer: "É fácil falar, eu quero ver você numa sala de aula colocar isso". Reconheço que não é fácil, face aos alunos de hoje. Nós temos vários tipos de alunos, mas cabe a nós tentarmos.
Como resgatar o prestígio do qual a figura do professor dispunha há décadas passadas?
Eu acredito que aquele professor de antigamente não vai existir mais. Até porque, todas as profissões estão ligadas à cultura da época. Não há mais aquela figura austera de um professor de guarda-pó, que ficava numa sala, num tablado. Hoje, o professor cada vez está mais igual, está mais próximo do aluno. Agora, a autoridade do professor, que não é autoritarismo, pelo seu conhecimento é reconhecida. E, como professores, nós vamos caminhar sempre. A cada curso que as pessoas fazem, elas valorizam mais a figura do professor. Não nos esqueçamos que o professor não é apenas para ensinar. O professor tem uma teia de emoções, sentimentos e valores que estão nesse processo. "Quantos de nós ficamos marcados por professores que nos deram uma nota que não merecíamos?".
E vale a pena ser professor, hoje, no Brasil?
É muito difícil. Nós não temos um salário relativo ao nosso desempenho. Não temos reconhecimento da sociedade. E, além disso, há os cuidados com a formação. O professor nunca acaba de estudar. Ele acaba de estudar compactamente, quando encerra uma graduação, um mestrado, um doutorado. Mas o seu conhecimento é sempre conduzido a novos conhecimentos. E o professor não precisa apenas ter um conhecimento específico da sua matéria. Ele precisa ler, ver filmes, participar de atividades culturais. Peço sempre aos meus alunos que visitem exposições, leiam livros e tragam para mim seus argumentos. Isso é educação, isso é uma formação ampliada que não se detém apenas em cima daquilo que a mídia passou para eles.
Como a srª avalia a participação de ONGs e Institutos Privados na educação pública?
Hoje há várias ONGs que trabalham com vários grupos e várias atividades. Acho isso muito bom, desde que não se mude a regra do jogo. A educação pública pode e deve ter inúmeras parcerias. Mas os determinantes ficam a cargo dos responsáveis pela educação. Eu posso e devo ter articulação de "n" formas. Mas fico espantada quando essas questões de empresas na educação assumem uma proporção maior do que a participação dos responsáveis pela educação pública.
No mês passado, a SME aplicou avaliações e constatou que, dos 460.453 alunos do 3º ano 9º ano avaliados, 286.571 mil precisam de aulas de reforço escolar em Português e Matemática. Além disso, entre os alunos do 4º ao 6º ano, 28.879 estudantes foram considerados analfabetos funcionais. A que a srª atribui esse desempenho? De quem é a culpa por tais resultados?
Depois da divulgação dessa pesquisa, a primeira coisa que eu faria seria ouvir os professores. Ah, mais a rede é maior da América Latina. Eu ouviria, pelo menos, determinadas lideranças para que não se caia num casuísmo: "Ah, o professor é ruim", ou "Ah, os alunos não tiveram livros", "Ah, o calendário escolar foi curto". Isso são comentários pinçados de um todo. Penso que o grande problema é saber porque isso aconteceu e quais foram as causas. Por outro, é preciso saber o que está se fazendo em termos de formação continuada desses professores. Os professores saem da faculdade, começam a trabalhar e depois precisam se atualizar. O que vemos muito na realidade é que os professores trabalham em duas escolas, correm de um lugar para o outro, têm muita coisa para corrigir. Isso não justifica a situação. Não quero culpabilizar; quero fazer uma identificação e procurar os melhores caminhos. A Secretaria Municipal de Educação anunciou que vai dar reforço aos estudantes. Mas, gostaria de saber mais sobre o "analfabeto funcional". Gostaria de saber o que a Secretaria caracterizou por analfabetismo funcional.
O como a srª avalia essa proposta de reforço escolar?
Pelo que eu li, o reforço vai chamar mães ou apenas pessoas para mandar os alunos abrirem o caderno e ler os exercícios, isso não é reforço. Eles precisam de professores preparados para isso. Evidentemente, esse reforço vai ser útil pois os alunos, muitas vezes, não têm quem os auxilie em casa. E esse reforço não deve ter o caráter punitivo: "Ah, você não foi bem, vai ficar depois da hora". Não é isso. É preciso ter alguém que seja parceiro e possa ajudar. Por que não chamar estagiários de universidades. Sou favorável à atuação dos estagiários.
De que forma esse estágio dos universitários, que está sendo muito aguardado na rede municipal, deve ser realizado?
Primeiro, não deve ser algo que ultrapasse o aluno. Tenho que partir da premissa de localizar aonde o aluno tem dificuldades e trabalhar para suprir essas necessidades. Depois que eu ganhei isso, devo passar para o item seguinte. Se eu desconheço esse diagnóstico, o aluno vai ter dois momentos diferenciados e o trabalho vai perder o caráter de recuperação. A primeira coisa é saber quem são esses alunos, qual é o plano de trabalho, qual é o projeto.
A mais nova proposta do MEC é a unificação do vestibular das universidades federais por meio do Enem. A srª considera essa medida correta? O MEC demonstra a mesma preocupação para o ensino superior e para a educação básica. Por quê?
Gostei da iniciativa do MEC de valorizar o Enem. Só estou com medo que o Enem passe a se chamar vestibular. Na rede particular, na sua grande maioria, os colégios melhores considerados são os que preparam para o vestibular. Eu não quero isso. Quero que haja uma oportunidade igual para todos. Gostaria de saber como o novo Enem será organizado, como será constituído. Já ouvi dizer que há cursos preparando para o Enem. Precisamos ficar atentos.
Qual é o principal desafio da educação no Brasil?
Avançamos muito em educação mas ainda há muito o que fazer. Temos trabalhos extremamente significativos, mas há muito o que fazer. Temos um ensino fundamental e médio pouco valorizado na rede pública. Mas, na universidade, a rede pública é a mais procurada. No Brasil, na pós-graduação, na minha área, pelo menos, apresentamos um nível comparado ao do primeiro mundo. Temos professores que publicam muito. Temos uma avaliação paralela sobre o que produzimos. Se eu tenho uma realidade de professores de tão alto nível, porque não resolvemos os problemas de educação. O que está acontecendo? Queria muito conversar com o presidente Lula e com o ministro da Educação, Fernando Haddad. A cada novo Governo, há novas propostas, de cima para baixo. Abram espaço para elaborarmos propostas de baixo para cima. Ouçam experiências bem sucedidas. Nosso presidente veio do Nordeste num pau-de-arara e chegou à presidência da república. Acredito que isso aconteceu porque ele teve a oportunidade de encontrar uma porta chamada sindicato. Qual é a porta que eu tenho nas escolas para que os alunos tenham voz e vez para falar?
E qual seria a sugestão para melhorar a qualidade da educação no Brasil?
Vamos colocar orientadores educacionais nas escolas. As secretarias municipal e estadual de Educação precisam dar atenção a esse ponto. O orientador educacional foi a primeira profissão regulamentada na área de educação. É uma profissão constituída desde 1968. A segunda profissão na área de educação só vai aparecer em 1998, que é o profissional de Educação Física, que evidentemente tem toda uma atuação diferenciada. O orientador não é aquela figura psicologizante, como foi antigamente, para resolver os problemas dos alunos. Eu sou professora titular em orientação educacional e sou apaixonada por essa área. Eu vejo o orientador como o mediador, como um professor incentivador. Presidindo hoje a Associação de Orientadores Educacionais do Rio de Janeiro posso dizer que, quase todas as escolas particulares de qualidade têm um orientador educacional. Quase todas as escolas confessionais têm um orientador educacional. O orientador é aquele professor que faz pensar diferente.
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"Ser jovem é descobrir-se a cada dia". A citação, presente na obra 'Juventude - uma luz que transcende o olhar', é também um lema para a organizadora do livro, a professora Mírian Paura, titular da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenadora do Núcleo de Pesquisa Juventude, Valores e Educação. A cada aula no programa de pós-graduação e também no curso de Pedagogia, Mírian Paura reconstrói a sua prática pedagógica.
Ex-aluna do Instituto de Educação, recentemente a educadora emocionou colegas com a publicação de um texto, contando como foram os "Anos Dourados da Educação". Até hoje, a professora guarda a paixão pelo magistério, que busca transmitir a seus alunos.
Em entrevista à FOLHA DIRIGIDA, a educadora dá uma verdadeira aula sobre o magistério. Trata da formação dos docentes, das estratégias para ampliar o capital cultural dos alunos, das avaliações aplicadas na rede pública e também da relação aluno/professor.
Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Juventude, Valores e Educação, Mírian Paura chama a atenção para a forte influência dos meios de comunicação sobre o comportamento da juventude. "Um dos fatores mais marcantes é a mídia, que tem uma força muito maior do que o que está na sala de aula ou dentro de casa", destaca a educadora.
Aos governantes, a titular da Faculdade de Educação dá um recado: destaca a necessidade da presença de orientadores educacionais nas escolas. "Presidindo hoje a Associação de Orientadores Educacionais do Rio de Janeiro posso dizer que, quase todas as escolas particulares de qualidade têm um orientador educacional. Quase todas as escolas confessionais têm um orientador educacional. O orientador é aquele professor que faz pensar diferente", completou Mírian.
Recentemente, a srª. publicou um texto demonstrando afeto e agradecimento por ter estudado no Instituto de Educação. A srª acredita que os estudantes de hoje poderão fazer o mesmo no futuro, com relação a suas escolas?
Mírian Paura - Gostaria de dizer que foi uma satisfação enorme ter escrito esse texto sobre o Instituto, cuja repercussão me surpreendeu. Acredito que algumas escolas ainda têm essa relação bem estreita entre professor e aluno. Eu não diria que todas têm. Precisamos desses laços para motivar os alunos. Hoje, uma das principais razões da evasão escolar é que os jovens não se sentem motivados, comprometidos com a escola. De um modo geral, eu vejo escolas particulares criarem grandes redes aluno/escola e aluno/ professor.
E na rede pública, isso não acontece?
A rede pública não cria mais isso. Eu não vejo mais o estreitamento de laços, como se via antigamente. Voltando ao Instituto de Educação, havia orgulho em usar aquele uniforme; havia orgulho de cantar o hino do colégio. Até hoje, em nossas reuniões, cantamos o nosso hino. Então, determinadas partes são símbolos para a integração com esses professores. E eu não vejo isso hoje. Esse tipo de relação ainda é encontrada em algumas escolas públicas diferenciadas, como os Colégios de Aplicação, por exemplo. Os alunos gostam de ser alunos de lá e os professores também gostam de trabalhar lá. É uma escola pública meio particular dentro do ponto-de-vista da organização. São os Colégios de Aplicação e o Colégio Pedro II. Ainda há uma terceira escola, mas que, pela suas características específicas, eu não coloco nesse grupo. É o Colégio Militar, que também é uma escola pública, mas quem o procura, procura por outros interesses.
A relação dos jovens com os professores e com o processo educacional em si mudou muito?
A relação dos jovens com os professores mudou totalmente. Aliás, o relacionamento do jovem com outras pessoas, pai, mãe, irmãos e professores, mudou também. É uma relação muito mais de igual para igual do que de jovens para outras gerações. É muito comum hoje vermos jovens que quase fazem papéis de pais; e pais fazendo papéis de filhos. Essa inversão se dá em vários momentos.
Quais são os principais fatores que levaram a essa mudança?
Um dos fatores mais marcantes é a mídia, que tem uma força muito maior do que o que está na sala de aula ou dentro de casa. O jovens se identificam com os modelos apresentados na comunicação e com eles fazem um registro de um novo posicionamento diante dessa realidade. Os jovens têm uma linguagem própria. Não estou me referindo apenas à gíria. Uma das falas que os jovens mais usam hoje em dia é "beleza". Tudo é "beleza". A beleza hoje tem uma dimensão muito grande para esta geração. Fora que o jovem utiliza no seu dia-a-dia a linguagem adquirida na
internet: o "não" é "n"; beijos é "bjs"; abraço é "abç" e por aí vai.
Quais são os traços mais marcantes dessas transformações?
O relacionamento. Hoje, mais do que nunca, o jovem almeja aquele momento de sucesso, de fama... Estão aí programas da televisão que são demonstrativos dessa busca. Esse jovem tem uma imediaticidade, o manhã não é amanhã, o amanhã começa hoje. Outra coisa é uma preocupação muito maior do que se pensa com o seu em torno. O jovem não está tão ligado apenas a si e a ao seu grupo, está ligado a questões do seu meio, da sua sociedade. Só que não é com a mesma intensidade, com a mesma preocupação, por exemplo, que o jovem de 68, que tinha na política a sua arma mais poderosa. Hoje, não se encontra mais esse afã de lutar.
E quais são os ideais dos jovens hoje?
As pesquisas que tenho feito demonstram a busca por uma certa estabilidade financeira. No curso de Pedagogia, onde atuo, por exemplo, os alunos consideram o curso importante. Mas eu queria mais: eu queria que eles se apaixonassem por essa área de educação, que se entregassem, que mergulhassem. E essa realização encontramos com mais facilidade, por exemplo, quando o jovem escolhe principalmente aquela tríade: Engenharia, Medicina e Direito. Os alunos desses cursos são mais apaixonados. Aí vem a grande pergunta: esses têm oportunidade de escolha, podem fazer essa opção. E aqueles que não têm? Aí está a beleza do nosso trabalho como educadores. É propiciar que esses jovens tenham uma luz no fim do túnel que não seja apenas o em torno dele, principalmente para aqueles de baixa renda. Essa é minha grande preocupação como educadora. O que eu faço é para ajudar esses jovens a ter no dia de amanhã, não uma forma de ganhar dinheiro e de sustento, mas um caminho que possa lhe abrir outras fontes, outros abrigos para mostrar o novo tempo para eles.
E qual estratégia a srª desenvolveu com eles?
À guisa do Governo Federal, eu criei o meu PAC. No meu PAC, o P é de pensar, o A de argumentar e C é de criar. Eu tenho que levar esses meus jovens a pensar. E pensar é refletir. Não é automatizar o que outro disse, ou pensar por que isto deu na televisão e eu estou pensando a mesma coisa. E busco na Filosofia todo um respaldo para trabalhar dessa forma. Todas as minhas aulas da graduação, eu começo trazendo para a sala de aula um acontecimento, pode ser algo da televisão, da rua, da cidade; os alunos devem trazer algo. Depois, eles devem pensar sobre aquilo: se está certo, está errado; se gostaram, se não gostaram; que valor eles atribuíram a esse acontecimento. Essa é a reflexão maior. Em seguida, vem o momento do A, de argumentar — buscar uma reflexão mais profunda. "Por que você achou aquela cena da televisão ruim?". "Ah, eu não gostei" — isso não é argumentar. Argumentar é aprofundar aquela questão, ir buscar subsídios. E, por fim, o C de criar. Trata-se daquilo que se cria como alternativa, como estratégia. Esse C de criar é sensacional porque o jovem, hoje, cria coisas incríveis, principalmente no ramo da informática. Ora, se eu tenho os jovens que criam essas alternativas, estratégias, mais uma vez eu volto para o papel da Educação. O que nós, educadores, estamos fazendo diante disso? Eu não quero constatar, não quero apenas diagnosticar, não quero apenas identificar, quero saber: "face a isso, o que que eu faço?".
Atualmente, na novela Caminho das Índias, exibida pela Rede Globo, a personagem Berê, vivida por Sylvia Buarque, é uma professora que enfrenta problemas com alunos adolescentes. O que a srª achou desse episódio ser mostrado numa novela?
Meu sonho é de mandar um e-mail para a Glória Perez. Além de cumprimentá-la pelo trabalho, eu queria dizer o seguinte: cara amiga Glória, caso você queira dar a este jovem e a esta professora, um final feliz — que não seja protagonizado nem pelo aluno sendo preso, nem pela professora largando o magistério — coloque nessa escola uma pessoa da maior importância: o orientador educacional, que é o mediador, que é o articulador entre essa situação e esse mundo lá fora. A repercussão desse episódio da novela foi enorme, pesou muito.
O que um professor, que enfrenta situação similar, deve fazer?
É óbvio que há caminhos punitivos como: "Você vai ser suspenso", "Você só entra aqui agora com o seu pai e com sua mãe", "Se repetir, você vai ser expulso da escola". Estes são caminhos fáceis, Glória Perez. Porém, eu quero mais, eu quero mudar esse personagem. Eu quero fazer com que esse sujeito seja capaz de se dar conta do que ele faz. Ele deve perceber: "Estou perdendo tempo jogando estojo na professora, eu não estou construindo nada. Eu só estou querendo é ficar famoso dentro do meu grupo".
Os professores se identificaram muito com esta situação?
Muito. Evidentemente que a situação não acontece com o professor que tem um bom relacionamento com a turma. O aluno quer que o professor seja professor. O jovem quer que a mãe seja mãe, e que o pai seja pai. Ele adora esses pais modernosos, mas quer a figura do pai, a figura da mãe, a figura do professor. O professor, para ele, é um modelo. E quando há bom relacionamento, eles não são capazes de fazer isso, pelo contrário, se alguma coisa vai além do inocente, eles são capazes de pedir desculpas. Voltando ao personagem da novela, eu não diria que é só falta de educação do garoto, que pelo quadro apresentado parece muito mimado pelo pai. Eu não vejo só isso. Eu vejo também muitos problemas na professora, com todo respeito, que ainda não conseguiu conquistar os alunos. Se a Glória Perez ler essa matéria, vai dizer: "É fácil falar, eu quero ver você numa sala de aula colocar isso". Reconheço que não é fácil, face aos alunos de hoje. Nós temos vários tipos de alunos, mas cabe a nós tentarmos.
Como resgatar o prestígio do qual a figura do professor dispunha há décadas passadas?
Eu acredito que aquele professor de antigamente não vai existir mais. Até porque, todas as profissões estão ligadas à cultura da época. Não há mais aquela figura austera de um professor de guarda-pó, que ficava numa sala, num tablado. Hoje, o professor cada vez está mais igual, está mais próximo do aluno. Agora, a autoridade do professor, que não é autoritarismo, pelo seu conhecimento é reconhecida. E, como professores, nós vamos caminhar sempre. A cada curso que as pessoas fazem, elas valorizam mais a figura do professor. Não nos esqueçamos que o professor não é apenas para ensinar. O professor tem uma teia de emoções, sentimentos e valores que estão nesse processo. "Quantos de nós ficamos marcados por professores que nos deram uma nota que não merecíamos?".
E vale a pena ser professor, hoje, no Brasil?
É muito difícil. Nós não temos um salário relativo ao nosso desempenho. Não temos reconhecimento da sociedade. E, além disso, há os cuidados com a formação. O professor nunca acaba de estudar. Ele acaba de estudar compactamente, quando encerra uma graduação, um mestrado, um doutorado. Mas o seu conhecimento é sempre conduzido a novos conhecimentos. E o professor não precisa apenas ter um conhecimento específico da sua matéria. Ele precisa ler, ver filmes, participar de atividades culturais. Peço sempre aos meus alunos que visitem exposições, leiam livros e tragam para mim seus argumentos. Isso é educação, isso é uma formação ampliada que não se detém apenas em cima daquilo que a mídia passou para eles.
Como a srª avalia a participação de ONGs e Institutos Privados na educação pública?
Hoje há várias ONGs que trabalham com vários grupos e várias atividades. Acho isso muito bom, desde que não se mude a regra do jogo. A educação pública pode e deve ter inúmeras parcerias. Mas os determinantes ficam a cargo dos responsáveis pela educação. Eu posso e devo ter articulação de "n" formas. Mas fico espantada quando essas questões de empresas na educação assumem uma proporção maior do que a participação dos responsáveis pela educação pública.
No mês passado, a SME aplicou avaliações e constatou que, dos 460.453 alunos do 3º ano 9º ano avaliados, 286.571 mil precisam de aulas de reforço escolar em Português e Matemática. Além disso, entre os alunos do 4º ao 6º ano, 28.879 estudantes foram considerados analfabetos funcionais. A que a srª atribui esse desempenho? De quem é a culpa por tais resultados?
Depois da divulgação dessa pesquisa, a primeira coisa que eu faria seria ouvir os professores. Ah, mais a rede é maior da América Latina. Eu ouviria, pelo menos, determinadas lideranças para que não se caia num casuísmo: "Ah, o professor é ruim", ou "Ah, os alunos não tiveram livros", "Ah, o calendário escolar foi curto". Isso são comentários pinçados de um todo. Penso que o grande problema é saber porque isso aconteceu e quais foram as causas. Por outro, é preciso saber o que está se fazendo em termos de formação continuada desses professores. Os professores saem da faculdade, começam a trabalhar e depois precisam se atualizar. O que vemos muito na realidade é que os professores trabalham em duas escolas, correm de um lugar para o outro, têm muita coisa para corrigir. Isso não justifica a situação. Não quero culpabilizar; quero fazer uma identificação e procurar os melhores caminhos. A Secretaria Municipal de Educação anunciou que vai dar reforço aos estudantes. Mas, gostaria de saber mais sobre o "analfabeto funcional". Gostaria de saber o que a Secretaria caracterizou por analfabetismo funcional.
O como a srª avalia essa proposta de reforço escolar?
Pelo que eu li, o reforço vai chamar mães ou apenas pessoas para mandar os alunos abrirem o caderno e ler os exercícios, isso não é reforço. Eles precisam de professores preparados para isso. Evidentemente, esse reforço vai ser útil pois os alunos, muitas vezes, não têm quem os auxilie em casa. E esse reforço não deve ter o caráter punitivo: "Ah, você não foi bem, vai ficar depois da hora". Não é isso. É preciso ter alguém que seja parceiro e possa ajudar. Por que não chamar estagiários de universidades. Sou favorável à atuação dos estagiários.
De que forma esse estágio dos universitários, que está sendo muito aguardado na rede municipal, deve ser realizado?
Primeiro, não deve ser algo que ultrapasse o aluno. Tenho que partir da premissa de localizar aonde o aluno tem dificuldades e trabalhar para suprir essas necessidades. Depois que eu ganhei isso, devo passar para o item seguinte. Se eu desconheço esse diagnóstico, o aluno vai ter dois momentos diferenciados e o trabalho vai perder o caráter de recuperação. A primeira coisa é saber quem são esses alunos, qual é o plano de trabalho, qual é o projeto.
A mais nova proposta do MEC é a unificação do vestibular das universidades federais por meio do Enem. A srª considera essa medida correta? O MEC demonstra a mesma preocupação para o ensino superior e para a educação básica. Por quê?
Gostei da iniciativa do MEC de valorizar o Enem. Só estou com medo que o Enem passe a se chamar vestibular. Na rede particular, na sua grande maioria, os colégios melhores considerados são os que preparam para o vestibular. Eu não quero isso. Quero que haja uma oportunidade igual para todos. Gostaria de saber como o novo Enem será organizado, como será constituído. Já ouvi dizer que há cursos preparando para o Enem. Precisamos ficar atentos.
Qual é o principal desafio da educação no Brasil?
Avançamos muito em educação mas ainda há muito o que fazer. Temos trabalhos extremamente significativos, mas há muito o que fazer. Temos um ensino fundamental e médio pouco valorizado na rede pública. Mas, na universidade, a rede pública é a mais procurada. No Brasil, na pós-graduação, na minha área, pelo menos, apresentamos um nível comparado ao do primeiro mundo. Temos professores que publicam muito. Temos uma avaliação paralela sobre o que produzimos. Se eu tenho uma realidade de professores de tão alto nível, porque não resolvemos os problemas de educação. O que está acontecendo? Queria muito conversar com o presidente Lula e com o ministro da Educação, Fernando Haddad. A cada novo Governo, há novas propostas, de cima para baixo. Abram espaço para elaborarmos propostas de baixo para cima. Ouçam experiências bem sucedidas. Nosso presidente veio do Nordeste num pau-de-arara e chegou à presidência da república. Acredito que isso aconteceu porque ele teve a oportunidade de encontrar uma porta chamada sindicato. Qual é a porta que eu tenho nas escolas para que os alunos tenham voz e vez para falar?
E qual seria a sugestão para melhorar a qualidade da educação no Brasil?
Vamos colocar orientadores educacionais nas escolas. As secretarias municipal e estadual de Educação precisam dar atenção a esse ponto. O orientador educacional foi a primeira profissão regulamentada na área de educação. É uma profissão constituída desde 1968. A segunda profissão na área de educação só vai aparecer em 1998, que é o profissional de Educação Física, que evidentemente tem toda uma atuação diferenciada. O orientador não é aquela figura psicologizante, como foi antigamente, para resolver os problemas dos alunos. Eu sou professora titular em orientação educacional e sou apaixonada por essa área. Eu vejo o orientador como o mediador, como um professor incentivador. Presidindo hoje a Associação de Orientadores Educacionais do Rio de Janeiro posso dizer que, quase todas as escolas particulares de qualidade têm um orientador educacional. Quase todas as escolas confessionais têm um orientador educacional. O orientador é aquele professor que faz pensar diferente.
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