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08 de abril de 2009
O DIÁLOGO NA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Autor(a): Claudete da Silva Lima Martins (UFSM)

Trabalho nº 27

O DIÁLOGO NA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA: REFLEXÕES A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA FREIREANA
Claudete da Silva Lima Martins
Universidade Federal de Pelotas – UFPEL/Universidade Federal de Santa Maria - UFSM
claudete8@yahoo.com.br
Educação e Diálogo


Considerações Iniciais
Embora de maneira propedêutica, exporei algumas reflexões das quais tenho participado no Curso de Mestrado em Educação, na linha de Pesquisa Filosofia, Educação e Sociedade; no Seminário Avançado Paulo Freire e nos grupos de Pesquisa Fepraxis e GAPE da Universidade Federal de Pelotas; e em turma do quarto semestre do Curso de Graduação a Distância em Educação Especial da Universidade Federal de Santa Maria, onde desenvolvo a pesquisa intitulada “As possibilidades dialógicas do Curso de Formação Docente em Educação Especial, oferecido pela Universidade Federal de Santa Maria na cidade de Bagé: diálogos com Paulo Freire e alunas em formação”, cujo referencial teórico prioritário fundamenta-se na obra de Paulo Freire. Neste sentido, as considerações, reflexões, proposições, conjeturas, descobertas, mediações e ações propostas na Pesquisa, encontram-se em andamento e têm seu enraizamento na prática dialógica a partir da concepção histórica da pesquisa, como elementos constitutivos da totalidade, numa práxis que busca a construção de uma educação libertadora.
O texto abordará o diálogo a partir dos pressupostos freireanos e a Educação a Distância no contexto atual, ressaltando os aspectos referentes à possibilidade de desenvolvimento do diálogo freireano numa proposta de Educação a Distância, que se propõe como alternativa para superação de processos desumanizantes. Assim a discussão em torno do diálogo, busca contribuir no desafio de construir práticas educativas alternativas a serviço da liberdade. Assim a temática abordada nesta reflexão, poderá contribuir para olhar o diálogo e a própria educação, por óticas ainda pouco exploradas nas discussões atuais.

Diálogo na Perspectiva Freireana: Breves Reflexões
Vários pensadores estudaram e praticaram o diálogo como: Sócrates, Aristóteles, Buber, Platão, Tomás de Aquino, Max Scheller, Monier, entre outros. Paulo Freire não o inventou ele o radicalizou, teorizando e praticando-o em sua vida e obra.
Segundo Admardo Serafim de Oliveira, Freire se desfaz das críticas que o acusavam da falta de originalidade citando Dewey, quando este afirma na obra Democracy and education, que “a originalidade não está no fantástico, mas no novo uso de coisas conhecidas” (1996, p.9). Neste sentido, o próprio Freire incita a criação e recriação contínua da educação, por meio do diálogo, legitimado numa práxis libertadora.
Em Freire o diálogo é o “encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu” (2005, p.91). Assim o diálogo se constitui como caminho, no qual os sujeitos estão em permanente movimento de construção e reconstrução. Para existir o diálogo autêntico, este deve fundamentar-se no amor, na humildade e na fé nos homens, acreditando que as pessoas são capazes de ir além, de superar as “situações limite” e quiçá alcançar o “inédito viável” enquanto sonho possível.
O diálogo em Freire, não é um recurso didático, uma técnica ou um método pedagógico; ele é uma exigência existencial para o ser humano, pois “Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo.” (2006, p.90).
Não raro, educadores e educadoras escondem-se em aulas que se constituem em verdadeiros monólogos, para não revelarem o seu medo do diálogo. Para tal, afirmam que “dialogar” é perder de tempo, fazendo adormecer a sua capacidade crítica e a do educando. Para Paulo Freire (2002, p. 55):
O diálogo e a problematização não adormecem a ninguém. Conscientizam. Na dialogicidade, na problematização, educador-educando e educando-educador vão ambos desenvolvendo uma postura crítica da qual resulta a percepção de que este conjunto de saber se encontra em interação. Saber que reflete o mundo e os homens, no mundo e com ele, explicando o mundo, mas, sobretudo, tendo de justificar-se na sua transformação.

A partir de Freire e olhando a realidade atual, percebemos que a luta a favor da condição democrática, radicalmente ética e dialógica é possível, mas é luta que se estabelece de forma antagônica à história que hoje vivemos, onde através de processos de desumanização negam-se direitos, silenciam-se gritos, soterram-se sonhos; justificando-se e legitimando-se pela opressão e pela marginalização dos sujeitos, pela raça, cor, situação financeira, nível intelectual, gênero, religião, condição física ou mental.
O que se busca através do diálogo é a problematização da realidade concreta na qual às pessoas estão inseridas, para compreendê-la, entendê-la e transformá-la. O diálogo autêntico e problematizador independe do tema ou conteúdo que se pretende problematizar, porque segundo Freire “Tudo pode ser problematizado” (2002, p.53).
Homens e mulheres, dialogando, mesmo que em situações de opressão e marginalização, podem construir espaços para transformação dessa realidade, superando as “situações-limite” em busca da liberdade, pois Segundo Freire (2005, p.90):

A existência, porque humana, não pode ser muda, silenciosa, nem tampouco nutrir-se de falas palavras, mas de palavras verdadeiras, com que os homens transformam o mundo. Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo.


A Educação a Distância no Contexto Atual
Atualmente o Ministério da Educação (MEC), por intermédio da Secretaria de Educação a Distância (SEED), tem se empenhado em disseminar a idéia da Universidade Aberta do Brasil (UAB) e da Educação a Distância no país. No texto com a Minuta do Decreto para regulamentação da Educação a Distância, disponibilizado para análise pública em abril de 2005, ela é definida da seguinte forma:
Art.1o. Para os fins deste Decreto define-se Educação a Distância a modalidade de processo educacional no qual a interação de educadores e educandos busca superar limitações de espaço e tempo, com a aplicação pedagógica de meios e tecnologias da informação e da comunicação e que tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho.

Neste contexto, a Educação a Distância é concebida como uma alternativa para a prática educativa, mediada pelo uso das tecnologias, com vistas a garantir, ampliar e interiorizar a educação possibilitando às pessoas o acesso ao conhecimento científico.
Com o advento da informática e mais recentemente da Internet, a Educação a Distância, ganhou novo impulso, tornando-se uma alternativa viável. Em relação à formação e autoformação docente, é importante ressaltar que existem contingências em relação à EaD, que precisam ser repensadas e analisadas, considerando que o paradigma da sociedade do conhecimento e da tecnologia demanda das pessoas uma nova postura acerca dos processos de ensino e de aprendizagem, como afirma Ladislau Dowbor (2001, p. 29):
Não é preciso ser nenhum deslumbrado da eletrônica para constatar que o movimento transformador que atinge hoje a informação, a comunicação e a própria educação constitui uma profunda revolução tecnológica. Este potencial pode ser visto como fator de desequilíbrios, reforçando as ilhas de excelência destinadas a grupos privilegiados, ou pode constituir uma poderosa alavanca de promoção e resgate da cidadania de uma grande massa de marginalizados, criando no país uma base ampla de conhecimento, uma autêntica revolução científica e cultural.

Paulo Freire refere-se aos saberes que considera necessários à prática educativa, considerando que ensinar exige saberes que são definidos em função do saber, saber-fazer, saber-ser que, coerentes entre si, auxiliam na formação do educador, que se assumindo como sujeito da produção do saber tem que estar consciente que ensinar não é transmitir conhecimentos, e sim, criar possibilidades para a construção do conhecimento. Ele afirma ainda, que (1996, p. 55) “...a inconclusão que se reconhece a si mesma implica necessariamente a inserção do sujeito inacabado num permanente processo social de busca”.
Neste contexto a formação e auto-formação desenvolvida nos Cursos de Educação a Distância assumem grande importância, reconhecendo que é necessário ressignificar a formação de professores levando em consideração o uso adequado das tecnologias. Contudo, é preciso não desconsiderar o contexto regional histórico, social, político e econômico em que os sujeitos estão inseridos. O que não se pode é desconsiderar o valor, as potencialidades e a qualidade proposta pela Educação a Distância a priori, sem uma análise rigorosa da mesma, como afirma Arnaldo Niskier (2000, p. 29):
A escola tradicional e a educação à distância podem e devem coexistir com suas velocidades próprias e de acordo com a determinação de prioridades. O que não é admissível é condenar a educação à a priori, mas vê-la como capaz de propiciar o exercício da cidadania, melhorando em geral, dando liberdade para aquisição de conhecimentos (independentemente da modalidade adotada), formando e aprimorando os professores ou criando maiores oportunidades educacionais.

Desta forma, é preciso que o planejamento, a organização, a metodologia, a estruturação e sistematização da educação a distância sejam efetivamente concebidos numa prática libertadora, que tenha por eixo central do processo os alunos em formação e não a tecnologia, como afirma APPLE, apud Litwin (1997, p.35):
A nova tecnologia está aqui. Não desaparecerá. Nossa tarefa como educadores é assegurar que quando entre em aula faça-o por boas razões políticas, econômicas e educativas, não porque os grupos poderosos querem redefinir nossos principais objetivos educacionais à sua imagem e semelhança.

Nesta perspectiva, o ciberespaço segundo Séraphin Alava é um espaço em constante mutação, em conflito e em regulação. E que para ser adequadamente utilizado como alavanca de aprendizagem repousa sobre a vontade dos formadores e dos responsáveis pela formação de acompanhar essas inovações. Séraphin alerta também que para conseguir essa mudança devemos evitar abstração dos contextos sociais dos atores em questão e das resistências que cada um manifesta. Portanto a Educação a Distância, precisa ter claro a realidade em que pretende atuar, vislumbrando potencialidades e desafios a serem enfrentados. Desta forma, se a priori o ensino a distância foi considerado como uma prática de autoformação, não se pode afirmar que as tecnologias de informação e comunicação (TICs) midiatizados, podem substituir o professor e por si só garantir a autoformação ou formação. É preciso promover a superação da racionalidade tecnológica, resgatando o compromisso ético e humanizador da educação.
A Educação a distância, que enfatiza a construção do conhecimento, deve atentar para a qualidade da mediação pedagógica. A mediação se fundamenta nos princípios de ensino e aprendizagem, e se concretiza pela recriação de estratégias e metodologias durante a realização de um curso. Lev Vygostsky realizou inúmeras contribuições no campo da psicologia e da educação, ao considerar a atividade humana como uma unidade de análise que preserva as propriedades das totalidades complexas da consciência, não sendo apenas a resposta a reflexos e condicionamentos e sim pela interação que se viabiliza a construção conhecimento. As funções superiores, não são geradas no vazio, mas são construídas a partir das relações que se estabelecem com objetos sociais, e só é possível através de processos de mediação.
Neste viés o diálogo constitui-se elemento fundamental para o desenvolvimento de uma práxis libertadora, que de fato possibilite a superação das situações-limite, a conscientização e a realização de processos humanizadores, a favor “dos esfarrapados do mundo”.

Diálogo e Educação a Distância: Conexões Possíveis
A Educação a Distância não pretende substituir ou exterminar com o ensino presencial e sim complementá-lo, na medida em que ambos têm suas limitações e contingências. Pois, segundo Prado (1993, p.109):
Mudar o enfoque educacional não é simplesmente mudar o método ou a técnica, não é substituir a diretividade pelo espontaneísmo. Essa mudança é mais profunda, envolve mudar concepções e valores e, conseqüentemente é o efeito dessa mudança que possibilita a criação e a re-criação do papel do professor calcado no conhecimento.

A Educação a Distância se utiliza de inúmeros instrumentos no processamento da formação: computador, softwares, filmes, rádio, televisão, correio, vídeo e tele e vídeo-conferência, entre outros. No entanto estes são instrumentos, enquanto objetos que facilitam a interação e não os sujeitos responsáveis pela formação. Não são as tecnologias que aprendem ou ensinam, são as pessoas envolvidas no processo.
Neste viés, o diálogo na EaD, pode ser realizado presencialmente ou on-line, mas não é a máquina que dialoga, ela apenas viabiliza o diálogo, são as pessoas que constróem o diálogo, que pronunciam o mundo. A máquina não é boa ou ruim em si mesma, depende da forma e objetivos com que a utilizamos. Paulo Freire respondendo ao questionamento feito Sérgio Guimarães na obra Sobre Educação (2003, p.103), se refere a esta questão, afirmando que: “...eu não sou contra o computador; o fundamental seria nós podermos programar o computador.”
Diante da complexidade de relações que se estabelecem ou que poderão se estabelecer é preciso um olhar autêntico e rigoroso, pois as dificuldades enfrentadas pela Educação a Distância, não são diferentes das que a educação, de modo geral, enfrenta.
Neste sentido a pesquisa que realizo tem por ponto de partida o acompanhamento do Curso de Educação Especial, desenvolvido em nível de graduação, através da modalidade de Educação a Distância, pela Universidade Federal de Santa Maria, na cidade de Bagé, buscando compreender, como se constituiu o diálogo no curso de formação docente proposto, em função das mediações tecnológicas que o acompanham. Buscando contribuir na construção e ampliação de práticas dialógicas junto aos alunos do curso, definindo, a partir de categorias freireanas, algumas ações continuadas de interação com estes alunos e, concomitantemente, investigando as próprias ações colaborativas propostas.
O eixo tensionador da investigação é visto a partir da possibilidade de desenvolver ou estimular práticas dialógicas, próximas às categorias freireanas de autonomia na reflexão, de compreensão das relações históricas de seu meio e seu tempo, de interação com a comunidade local, de diálogo e a ação colaborativa no enfrentamento positivo das contingências da formação. A pesquisa encontra-se em andamento, mas percebe-se que para dialogar, não basta falar no diálogo é preciso promovê-lo numa relação democrática, horizontal, comprometida, interativa, crítica, transformadora, amorosa e principalmente esperançosa, que poderá utilizar-se das novas tecnologias ou não.
Conceber o diálogo, na Educação a Distância, como possibilidade significa compreender que aprender não é estar em atitude contemplativa frente ao mundo, que a presença física de professor e aluno por si só não garantem o diálogo e a aprendizagem e sobretudo que, todos tem direitos a educação de qualidade, independentemente das diferenças que possam ter, mesmo que essas diferenças sejam traduzidas em vários quilômetros. Portanto, é preciso acreditar no vir a ser, aonde os sujeitos vão se constituindo como história e pela história como sujeitos que estão sendo e buscam ser mais, para diante da realidade em que vivem poderem agir, refletir, transformar e lutar por seus ideais e sonhos, sem perder a fé e a esperança no presente e no futuro.
A presença física do educador frente aos educandos por si só, não assegura a realização do diálogo, assim como um diálogo promovido através de ferramentas virtuais, desafiando a inteligência e a criticidade dos alunos, desenvolvendo a autonomia e a capacidade de “dizer sua palavra” de forma amorosa e esperançosa, pode ser um exemplo de diálogo autêntico numa prática educativa libertadora. A questão emergente é a postura que educador e educando assumem frente ao diálogo que constróem; podendo tanto reduzi-lo a um ato de digerir idéias e informações quando a uma atividade criadora e recriadora.

Considerações Finais
Não pretendo com estas breves reflexões exaurir todas as questões concernentes ao diálogo freireano conectado a Educação a Distância, mas suscitar o debate e reflexão a cerca deste tema, porque não é nos “silêncios” que os homens e mulheres se libertam e sim pela liberdade e para a liberdade, porque homens e mulheres são seres inacabados, como a própria realidade também o é. Neste sentido está posta a luta pela ressignificação da prática docente como elemento indispensável no processo de transformação social.
Neste sentido, é preciso conceber a realidade como possibilidade, num movimento permanente de construção e reconstrução, pois como afirma Paulo Freire:
Sociedades não são, estão sendo o que delas fazemos na História, como possibilidade. Daí a nossa responsabilidade ética. Se a História fosse um tempo de determinismo em que cada presente fosse necessariamente o futuro esperado ontem, assim como o amanhã será o que já se sabe, não haveria espaço para opção, ruptura (2005, p. 39).

Referências bibliográficas

ALAVA, Séraphin. Ciberespaço e formações abertas / Rumo a novas práticas educacionais. Porto Alegre: Artmed, 2002.

DOWBOR, Ladislau. Tecnologias do conhecimento: os desafios da educação. Petrópolis. RJ: Vozes, 2001.

FREIRE, Paulo; GUIMARÃES, Sérgio. Sobre educação: diálogos. v. II. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 2003.

_______. À Sombra desta Mangueira. São Paulo: olho D’Água, 1995.

_______. Conscientização: teoria e prática da libertação.

_______. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

_______. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

LITWIN, Edith. Tecnologia educacional: política, histórias e propostas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

LITWIN, Edith. Educação a distância: temas para o debate de uma nova agenda educativa. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.
MEC, Ministério da Educação. Referenciais de Qualidade para Cursos a Distância. Secretaria de Educação a Distância. Brasília: MEC, 2003.
NISKIER, Arnaldo. Educação à distância – A tecnologia da esperança. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
NÓVOA, António. Os Professores e a sua formação. Formação de Professores e Profissão Docente. Lisboa, 1992.



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