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03 de abril de 2009
Ler- necessidade do Mundo Contemporâneo
Autor(a): Terezinha Machado*

A inclusão de todos no mundo da leitura garantirá um futuro mais justo, mais democrático para todos.

Temos assistido as estatísticas que apontam resultados da qualidade dos alunos de escolas públicas, seja em esfera federal, presidida pelo MEC ou pelo governo estadual e municipal. Aqui, no Rio de Janeiro, a Prefeitura precedeu a uma avaliação (neste mês de março de 2009) e descobriu que temos mais de vinte e cinco mil analfabetos funcionais de segundo ao nono ano.
Isso aumenta a responsabilidade da necessidade de reflexão sobre o que estamos fazendo do ensino da leitura e escrita em nossas salas de aula. Essa situação exige dos professores que pesquisem, mudem sua prática pedagógica, experimentem novas metodologias, apropriem-se das novas tecnologias educacionais em proveito de um fazer pedagógico mais didático, onde a sala de aula possa ter um trabalho de contexto mais significativo e que possa ser instaurada uma maior interatividade entre alunos, professor e conteúdos.
Estamos enfrentando um grande desafio para preparar novos leitores. As crianças e jovens ainda acreditam na leitura como fonte de conseguirem novas informações. Não podemos sufocar no nascedouro da leitura nosso pequeno leitor com regras pré-estabelecidas que conferem à leitura um aspecto de chatice que as afasta dessa prática.
Seja a leitura para obter informação, para construir conhecimento ou entretenimento, há
algo em comum em todos esses objetivos: ter um trabalho anterior em relação à semântica, trabalhar vocabulário, enriquecendo as frases com mais palavras, distinguir os diversos significados que uma palavra pode ter de acordo com o contexto frasal. A compreensão é o que nos interessa. Sabemos das dificuldades que têm os alunos do Ensino Fundamental para ler e entender enunciados de questões em exercícios e avaliações. É necessário que a compreensão seja estabelecida a partir do ato de ler como diálogo que se constrói “na inter-relação entre leitor-texto-autor-contexto de produção e de leitura”.

A ferramenta da leitura é a mais espetacular na aquisição de conhecimento.

Além dos olhos, que apenas trazem a informação visual, devemos colocar nossa atenção na “informação não-visual”, que depende de conhecimentos prévios sobre o assunto lido.
O cérebro é o órgão responsável pela seleção do “que” e “como” ler, ou seja, na leitura deve-se levar em consideração o texto impresso (informação visual) e o que está por trás dos olhos do leitor, o que está por trás do texto – o conhecimento que leitor já possui sobre o assunto (informação não-visual).
Quando lemos algo que nosso cérebro descobre que não há significação para o conjunto de informações que são armazenadas na memória de longo prazo, há uma rejeição a essa leitura, lançando estranhamento, gerando confusão na leitura que acaba por desmotivar o leitor, além de levá-lo a uma fragilidade na compreensão do mesmo.
Precisamos pesquisar para adquirir conhecimentos que são básicos sobre a questão dos mecanismos que nos conferem ferramentas para a prática da leitura. Um desses conhecimentos importantes é saber que existem dois tipos principais de memória: a memória de curto prazo e a memória de longo prazo.
A memória de curto prazo é funcional, retém com brevidade as informações que estamos adquirindo na leitura, se não houver significação ou compreensão sobre tais informações serão esquecidas com rapidez, antes de se chegar ao final do texto, já não estarão mais ao alcance do leitor.
Já a memória de longo prazo é aquela que guarda todas as informações significativas não-visuais, ou seja, é a nossa leitura de mundo. Se adquirirmos novas informações que sejam significativas e coerentes com a visão de mundo estruturado que se possui, o cérebro irá organizar esses novos dados que passarão a integrar uma rede de conhecimentos, que será transformada à cada nova aquisição.
Para afirmarmos que temos compreensão do texto que lemos, temos que ler nos fazendo perguntas sobre o texto. Outra função importante da visão pessoal de mundo é a possibilidade de antecipar, prever eventos futuros; ou seja, criar expectativas sobre o que poderá acontecer em determinadas situações – isso graças à eficiência da visão de mundo que funciona mesmo quando não temos consciência dela.
Temos a possibilidade de ler e tentar antecipar o que virá mais à frente no texto. Essa potencialidade aparecerá com frequencia quando o leitor já adquiriu um bom vocabulário, já internalizou a estrutura do texto e colocou em cheque os seus conhecimentos prévios relacionados com o que está lendo. Se chegar ao final do texto e tiver feito antecipações que se confirmem, provavelmente este leitor estará com o mecanismo de leitura bem instalado.
Cada vez mais a sociedade, principalmente o mercado de trabalho aponta para a necessidade de um sujeito capaz de resolver problemas, se auto-informar, capaz de pesquisar soluções para seus trabalhos através das várias tecnologias que o mundo moderno oferece. A responsabilidade de formar esse sujeito é da escola. Se não estamos conseguindo nem ao menos alfabetizar nossas crianças, algo está muito errado. Talvez, quem sabe, a questão da insistência de se querer alfabetizar crianças por métodos arcaicos, repetitivos que não dão mais conta da curiosidade, da bagagem de conhecimento tecnológicos que uma criança de seis anos leva para a escola. Lá o que ela encontra, no ensino tradicional, é a negação de tudo o que ela conheceu em seus primeiros anos de vida ou uma escola que usa a tecnologia, mas de maneira inadequada.
Cabe ao professor procurar, através de pesquisa contínua, novas metodologias, aprofundar-se nas descobertas das novas teorias da aprendizagem, que, afinal, nem são tão novas assim. A sociedade respaldada pelas provas, concursos elaborados por uma elite insiste em submeter a população à uma ideia que vale mais a decoreba, a quantidade de informação acumulada em vez da qualidade da informação, que selecionada pelo senso crítico de cada um poderá alicerçar a construção do conhecimento individual.
A leitura como fonte de prazer e entretenimento pode ser a porta aberta para alcançar o interesse infantil sobre a leitura significativa. Qual a criança que não gosta de revistinhas de quadrinhos? Por que os quadrinhos foram tão desprezados como texto de leitura? Começar por textos pequenos e sem grande valor literário, mas com grande interesse para as crianças pode ser o início de uma relação duradoura e prazerosa entre criança e leitura.
A criança, que é colocada em contato com a prática de ouvir histórias, lendas, fábulas, poesias e outros, estará se habilitando a compreender textos orais e ter idéia de como se constrói o texto escrito. Uma construção não parte do nada, necessita de elementos para ser iniciada.
Como pessoas comprometidas com a formação de novos cidadãos, vamos colaborar das mais variadas formas para que todas as crianças tenham a chance de realizar seu grande sonho: entrar no mundo moderno equipadas com a maior, mais eficiente e espetacular ferramenta de aquisição de conhecimento: a leitura.
Somente incluindo todas as pessoas no mundo da leitura poderemos realmente afirmar que estamos vivendo a Sociedade da Informação. Teremos uma sociedade baseada na igualdade de direitos, democraticamente distribuídos por todos.

Terezinha Machado* é Mestre em Educação, Professora de Português, Psicopedagoga, Especialista em Educação a Distância. Atua como Professora de Ensino Superior das Faculdades Integradas Simonsen, Consultora Educacional e Diretora de Redação da Revista dinâmica (www.revistadinamica.com)


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