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27 de março de 2009
NOTAS PARA A LEITURA DE "A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO"
Autor(a): Roberto Motta*

RESUMO: Este artigo é uma introdução ao pensamento social de Max Weber, sem procurar apoiar ou contradizer. Trata-se aqui de elucidar seu vocabulário e esclarecer seu processo metodológico implícito. Neste sentido, utiliza-se a obra capital de Max Weber, "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", tendo em vista que ela é uma das mais importantes tentativas em toda a história das ciências sociais e históricas de se chegar a uma teoria crítica da mudança e do desenvolvimento.

Palavras-Chave: Teoria Social; Max Weber; Ética Protestante; Sociologia Alemã



1. É sempre uma alegria falar sobre um grande da inteligência, mesmo se ele se apresenta com todos os penhascos e despenhadeiros de uma escabrosa cordilheira". É sempre uma alegria tentar decifrar e apresentar o pensamento de Max Weber. A frase, atribuída a Whitehead, segundo a qual, em matéria de filosofia, tudo o mais, depois de Platão, não passa de notas de rodapé, bem que se pode aplicar a Max Weber. Boa parte da Sociologia contemporânea não passa de notas de rodapé a seus trabalhos, sobretudo, justamente, à Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. E é como notas de rodapé a notas de rodapé que se apresenta este artigo. Seu autor se dará por satisfeito se ajudar a leitura do texto a que se refere, cuja espantosa erudição e supremo refinamento de conceitos parecem servir mais para desorientar do que para esclarecer o leitor, mesmo se provido de formação sociológica e histórica convencional.



2. Religião e Capitalismo: Marx e Weber - Os Ensaios Reunidos sobre a Sociologia da Religião, dos quais fazem parte os estudos que Weber intitulou A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, representam, em forma extremamente sedutora, uma das tentativas mais importantes, em toda a história das ciências sociais e históricas, de chegar-se a uma teoria crítica da mudança e do desenvolvimento. E trata-se de teoria que acentua, ao menos em "primeira instância" (como Weber vai dizer), não o desenvolvimento das forças produtivas, porém as conseqüências da lógica interna de fatores culturais, idéias, atitudes ou valores. É verdade que, salvo se não se faz questão de cair no mais grosseiro dos materialismos, tem-se de admitir, qualquer que venha a ser a direção da causalidade, que ao desenvolvimento das forças produtivas corresponde algum tipo de representação, ainda que ingênua, na consciência dos homens atores de processos econômicos. Há, portanto, uma mediação cultural e ideacional, que é lícito estudar, mesmo dentro da mais materialista das perspectivas.

3. Mas não se quer aqui insinuar, por exemplo, que Weber fosse um refinadíssimo materialista dialético. Não há conciliação possível ou mágica transposição de clave entre, de um lado, a teoria da religião, esboçada por Karl Marx no primeiro capítulo d'O Capital e, do outro, o segundo capítulo, "O Espírito do Capitalismo", de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

4. Para o primeiro,

O mundo religioso é apenas o reflexo do mundo real. E para uma sociedade baseada na produção de mercadorias, na qual os produtores, em geral, entram em relação uns com os outros tratando seus produtos como mercadorias e valores e assim reduzindo seu trabalho individual privado à medida do trabalho humano homogêneo - para uma tal sociedade o cristianismo, com seu culto do homem abstrato, mais especialmente em seus desenvolvimentos burgueses, Protestantismo, deísmo, etc., é a forma de religião mais adequada.

5. Para Weber, que parecia ter em mente exatamente esta última citação,

O espírito do capitalismo (no sentido que lhe conferimos) estava presente antes do desenvolvimento do capitalismo [...] A questão das forças motivadoras da expansão do capitalismo moderno não é, em primeira instância, uma questão de origem das somas de capital disponíveis para uso capitalístico. Mas, principalmente, do desenvolvimento do espírito do capitalismo. Onde este aparece e é capaz de desenvolver-se, produz seu próprio capital e seu suprimento monetário como meios para seus fins, e não o inverso.



6. Note-se não ter sido Weber o primeiro a postular uma correlação entre desenvolvimento capitalista e protestantismo. O próprio Marx (conforme a citação extraída d'O Capital) já o tinha feito. E, com finalidades certamente diversas das de Karl Marx, esse postulado constituía, e ainda constitui, lugar-comum da apologética protestante.



7. Usos de Weber à Esquerda e à Direita - Existem, por assim dizer, usos de "esquerda" e de "direita" da sociologia histórica de Weber. O primeiro, encontrado em sociólogos do desenvolvimento como S.N. Eisenstadt, David McClelland, Everett Hagen e outros, influenciados sem dúvida por Talcott Parsons, consiste em contrapor o modelo de relações sociais e econômicas, derivado dos Ensaios Reunidos sobre a Sociologia da Religião, à situação que se presume existir em áreas subdesenvolvidas. Há uma espécie de apelo implícito à conversão nessa sociologia do desenvolvimento. Não mais, bem entendido, ao Calvinismo ortodoxo. Mas a versões secularizadas do seu ethos. O uso "direitista" de Weber é o que se faz contra o materialismo histórico. Os sociólogos do desenvolvimento sabem aliás atacar à direita e à esquerda e os mesmos que utilizam A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, dentro dos princípios da apologética pós-protestante, contra as trevas do subdesenvolvimento, também a apresentam como modelo de refutação do primado histórico das forças produtivas. Ao leitor convém estar consciente de tanto uso e contra-uso. Este artigo pretende ser apenas de introdução e esclarecimento, sem procurar apoiar ou contradizer. Ler e entender Weber, independentemente do juízo final a que sobre ele se chegue, faz parte do mínimo que se pode esperar de um cientista social. Trata-se aqui de elucidar seu vocabulário e esclarecer seu processo metodológico implícito.



8. Temas e Capítulos - A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo acha-se dividida em três seções. A primeira compreende a "Introdução", que é aliás introdução ou "observações preliminares" (Vorbemerkungen) a todo o conjunto dos Ensaios Reunidos sobre a Sociologia da Religião. Segue-se "O Problema", com capítulos iniciais sobre "Filiação Religiosa e Estratificação Social" e "O Espírito do Capitalismo", contendo uma apresentação geral do problema da natureza e origem do moderno capitalismo; já neles Weber sugere a hipótese da conexão genética entre Protestantismo e capitalismo. No último capítulo desta segunda seção, "A Concepção da Vocação em Lutero", Weber inicia uma ampla digressão sobre as atitudes para com o mundo e a idéia de vocação das principais igrejas e seitas protestantes, que prossegue no capítulo "Fundamentos Religiosos do Ascetismo Laico" da última seção, denominado "A Ética Vocacional do Protestantismo Ascético", o qual capítulo, em algumas traduções, inclusive na brasileira, aparece com subtítulos sobre "O Calvinismo", "O Pietismo", "O Metodismo" e "As Seitas Batistas". O último capítulo, "A Ascese e o Espírito do Capitalismo", faz figura de conclusão, que na verdade já vem apresentada no decorrer de todo o livro. Pois as repetições se apresentam numerosas nesta obra e o esquema de seções e de capítulos não se deve entender que implique em compartimentos estanques. Embora com esta ressalva, nestas notas o mais possível seguiremos a ordem sugerida pelo próprio livro.



9. Racionalidade e Ocidente - Na "Introdução", Weber trata do caráter racional da civilização ocidental: "Somente na civilização ocidental apareceram fenômenos universais dotados (como queremos crer) de um desenvolvimento universal em seu valor e significado".

10. Tal validade universal prende-se à racionalização, à organização sistemática e metódica, das diversas manifestações culturais. Filosofia, Teologia, Astronomia, Geometria, ciências naturais e Medicina; Historiografia, Direito, Música, Arquitetura, Educação, Administração e Política constituem objeto de seis parágrafos muito eruditos. Ao que nosso autor acrescenta: O mesmo ocorre com a força mais significativa de nossa vida moderna: o capitalismo.

11. Weber cuida de esclarecer que o capitalismo a que se refere em nada se confunde com a simples ganância:

O impulso para o ganho, a ânsia do lucro, do lucro monetário o mais alto possível, não tem nada a ver em si com o capitalismo. Esse impulso existiu e existe entre garçons, médicos, artistas, prostitutas, funcionários corruptos, soldados, ladrões, cruzados, jogadores e mendigos - ou seja em "all sorts and conditions of men", em todas as épocas e em todos os países da Terra, onde quer que, de alguma forma, se apresentou ou se apresenta uma condição objetiva para isso. A superação dessa noção ingênua de capitalismo pertence ao ensino do jardim da infância da história da cultura. O desejo de ganho ilimitado não se identifica nem um pouco com o capitalismo, muito menos com o espírito do capitalismo.

12. O capitalismo moderno, objeto exclusivo de sua análise, tem como característica fundamental ser todo ele penetrado pela racionalização, que vai manifestar-se na contínua atenção prestada ao cálculo de rentabilidade dos fatores de produção, incluindo a organização racional do trabalho livre, que ao menos virtualmente, implica na burocratização da empresa e na adoção de técnicas o mais possível racionais de contabilidade:

a organização racional moderna da empresa capitalista não teria sido possível sem [...] a separação entre a administração doméstica e a empresa, que hoje invade completamente a vida econômica, e - estreitamente associado a esse primeiro fenômeno - com a contabilidade ou tratamento racional da escrita.



13. O capitalismo weberiano vai, portanto, distanciar-se da atitude tradicional e universal relativa à simples aquisitividade, assim como vai diferenciar-se essencialmente da simples especulação, que não se baseia na racionalidade, mas no oportunismo, isto é, vai diferenciar-se daquele

capitalismo de empresários isolados, de especuladores em larga escala, de colonizadores; boa parte do capitalismo financeiro, mesmo em tempo de paz, mas principalmente na exploração das guerras, ainda possui essas características nos modernos países ocidentais e uma parte, mas apenas uma parte do grande comércio internacional - hoje como sempre - ainda está preso a elas.



14. Dizer que o capitalismo moderno resulta do espírito do capitalismo, anterior ao desenvolvimento de suas forças produtivas materiais, eqüivale a dizer que condições materiais objetivas terão importância apenas secundária. Para Weber, a tarefa essencial consiste em apreender ou compreender a conexão entre o espírito do capitalismo e a força espiritual, a ética ou o ethos, que o possa ter gerado.

15. Daí sua investigação sobre as grandes religiões:

O racionalismo econômico, embora dependa parcialmente da técnica e do Direito racional, é ao mesmo tempo determinado pela capacidade e disposição dos homens em adotarem certos tipos de conduta racional. Onde elas foram obstruídas por obstáculos espirituais, o desenvolvimento de uma conduta econômica também tem encontrado uma séria resistência interna. Ora, as forças mágicas e religiosas, os ideais éticos de dever delas decorrentes, sempre estiveram entre os mais importantes elementos formativos da conduta. É com elas que se ocupam os estudos aqui reunidos.



16. O texto da "Introdução" de Weber lembra as Lições sobre a Filosofia da História, de Hegel. Para ambos autores, cujas posições filosóficas e metodológicas aparentemente não se confundiriam, a história do Ocidente se caracteriza pela ascensão da racionalidade, o motor da História encontrando-se em forças espirituais. Mas para Weber isto se confirmaria por constatações sociológicas e históricas, enquanto Hegel pareceria mais acentuar contemplação intelectual das virtualidades da Idéia.



17. Esquema Metodológico: Compreensão e Afiliação Religiosa - A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo representa apenas um dos ensaios (ou conjunto de ensaios) de Weber sobre as relações entre religião e ethos econômico. Seus estudos a respeito de seitas protestantes, Confucionismo e Taoísmo, Hinduísmo e Budismo e Judaísmo antigo, tudo isto ornamentado com muitas notas e "considerações intermediárias", também gozam de grande fama entre os estudiosos das religiões e do desenvolvimento. Neles o método da compreensão é levado ao auge. A argumentação se baseia essencialmente em conexões de sentido e não em correlações estatísticas de qualquer espécie. Os fenômenos observados são a tal ponto amplos, ou a tal ponto individualizados, que não se prestam à aplicação de técnicas quantitativas de investigação. De fato, fenômenos como "Protestantismo ascético", "espírito do capitalismo", "Taoísmo", "dharma" (o dever, ou retidão, específico a cada categoria social, no Hinduísmo), exigem tratamento metodológico bastante peculiar. Interessa fundamentalmente a Weber a compreensão das notas características de cada uma dessas individualidades, isto é, o seu tipo ideal.

18. Poder-se-ia argumentar que, ao tipo ideal, Weber teria chegado através de um processo indutivo que, explícita ou implicitamente, partiu de ocorrências em pequenos grupos ou indivíduos. Considerações dessa ordem, porém, estão ausentes de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, cujo capítulo I, "Filiação Religiosa e Estratificação Social", no qual é feito grande uso de estatísticas oficiais e outros dados numéricos, só aparentemente contradiz o ponto de vista aqui expresso. Sua função é acima de tudo ilustrar e exemplificar. Nenhuma compreensão será possível, apesar de toda a massa de ocorrências, sem que

O fundamento da diferença de atitude seja no essencial buscado no caracter intrínseco e constante [...] das religiões. Trata-se antes de tudo de investigar quais sejam ou tenham sido o elementos do caráter das religiões que tenham operado, ou em parte ainda operem, na direção que já se delineou.



19. Ou sem que "seja encontrada uma afinidade essencial entre certas características do velho espírito protestante e a moderna cultura capitalística".

20. Se quiséssemos simplificar a argumentação de Weber, reduzindo-a a uma espécie de silogismo, teríamos o seguinte resultado. Os comportamentos econômicos dependem de sistemas éticos-religiosos. Portanto o capitalismo moderno depende da ética de alguma religião. Ora, esta, como se pode concluir a partir de conexões de sentido, não é o Confucionismo, o Hinduísmo, o Judaísmo, nem o Islamismo. É o Cristianismo. Mas não o Catolicismo. Sobra (fazendo abstração das igrejas orientais, a que Weber nem se digna aludir) o Protestantismo e, dentro deste, sempre tendo a compreensão dos sentidos com método, as variedades ascéticas. As estatísticas sobre estudantes, ou sobre a distribuição da riqueza, em Baden, na Baviera, na Alsácia-Lorena ou na Hungria (áreas de filiação religiosa tipicamente mista), corroboram o método da compreensão, mas não o substituem.



21. O Espírito do Capitalismo: A Ética do Trabalho - No capítulo II, intitulado "O Espírito do Capitalismo", Weber retoma temas já tratados na "Introdução". O capitalismo moderno nada teria a ver com avareza, cobiça ou qualquer paixão:

A finalidade suprema [summum bonum] desta ética, a obtenção de mais e mais dinheiro, combinada com o estrito afastamento de todo gozo da vida, é, acima de tudo, destituída de qualquer caráter eudemonista, pois é pensada como uma finalidade em si, chegando a parecer algo de superior à felicidade ou à utilidade do indíviduo.



22. Porém, neste contexto, ainda mais importante do que a descriça dos grandes rasgos do espírito do capitalismo, é a formulação da tese segundo a qual a ética, necessariamente coligada à religia, é anterior ao desenvolvimento material do capitalismo. O texto é taxativo. Weber se refere com desprezo "à doutrina do mais ingênuo materialismo histórico, de que tais idéias se originam como reflexo ou como superestruturas de situações econômicas" (p.34).

23. Suas incursões históricas parecem garantir que, ao menos no que diz respeito ao Nordeste dos Estados Unidos, durante os séculos XVII e XVIII, "a relaça causal é, certamente, a inversa daquela sugerida pelo ponto de vista materialista".

24. E nosso autor se sente autorizado a afirmar que "querer falar aqui do 'reflexo' das relações 'materiais' sobre a 'superestruturas ideológica' seria pura insensatez" (p.49br).

25. Insensatez que se comprovaria pela verificação de que

no centro do desenvolvimento capitalista do mundo de então, a Florença dos séculos XIV e XV - mercado de dinheiro e de capital de todas as grandes potências - era considerado como moralmente criticável o que, nas retrógradas circunstâncias pequeno-burguesas da Pensilvânia do século XVIII, onde a economia se via ameaçada, pela simples falta de dinheiro, a regredir ao estágio primitivo de troca, onde dificilmente havia um sinal de grande empresa, onde mal podiam ser encontrados os primórdios de um sistema bancário, era visto como constituindo um estilo de vida, não só louvável, mas recomendado.



26. O que existia não existia em Florença e existia na Pensilvânia era o espírito do capitalismo, descrito por Weber, no decorrer do capítulo, como

a idéia do dever de um indivíduo com relação ao aumento de seu capital, que é tomado como fim em si mesmo. [...] Não é uma simples técnica de vida, mas sim uma ética peculiar. [...] Esta é a essência do problema. [...] Um ethos. Esta é a qualidade que nos interessa.



27. O espírito do capitalismo corresponderia, enfim, à consciência ou mesmo à angústia de bem realizar o dever profissional ou, dito de maneira ainda mais simples, ao que também se denomina "ética do trabalho", ou seja:

Esta idéia peculiar do dever profissional, tão familiar a nós hoje em dia, nas na realidade tão pouco evidente, que é a mais característica da ética social da cultura capitalista e, em certo sentido, sua base fundamental. É uma obrigação que o indivíduo deve sentir e realmente sente, com relação ao conteúdo de sua atividade profissional, não importando no que ela consiste e, particularmente, se aflora como uma utilização de seus poderes pessoais ou apenas de suas possessões materiais (como "capital") (p.33br).



28. Trata-se, portanto, de

investigar de que espírito é filha aquela forma concreta de pensamento e de vida "racionais", a partir da qual se desenvolveu a idéia de profissão e de devotamento ao trabalho profissional - tão irracional desde o ponto de vista puramente eudemonista do interesse pessoal - que apesar de tudo foi e continua a ser um dos elementos característicos de nossa cultura capitalista (fr80).



29. Penetramos agora no capítulo "A Concepção de Vocação de Lutero; Tarefa da Investigação". Weber aí sugere uma de suas teses fundamentais. É à Reforma que se deve a valorização do trabalho, profissão ou vocação intramundana. E justamente aí se estabelece uma dos rasgos distintivos básicos entre Protestantismo e Catolicismo. Mas antes mesmo de prosseguir, convém que nos entendamos sobre o sentido de alguns termos. Um deles é ascese, que vai, a partir deste momento, desempenhar papel cada vez mais importante no contexto da EPEC.

30. Ora, ascese significa (para empregar palavras muito afins às do próprio Weber) nada mais do que recusa ou rejeição do mundo. Recusa ou rejeição, isto é, do gozo do mundo, ou, noutras palavras (dando agora a essa expressão um sentido próximo ao que possui em Freud), do princípio de prazer como regra de vida. No contexto religioso, ascese (em alemão "askese", do grego "askesis", exercício, esforço, subida) significa pois a recusa a uma vida simplesmente "natural", que seguisse as inclinações espontâneas do indivíduo, denominadas "alegria de viver", "gozo espontâneo da vida", "eudemonismo" e "hedonismo" na obra que aqui se analisa.

31. Desde o período mais antigo da história do Cristianismo - na verdade, desde a pregação do Cristo e de São Paulo - considerou-se o princípio do prazer (expressão, repita-se, utilizada, nestas notas, no sentido muito amplo que lhe confere Freud) como incompatível com a salvação, sem nem falar em santificação. Estamos diante de um dos dogmas fundamentais tanto do Catolicismo, como de praticamente todas as grandes denominações protestantes: o ser humano possuiria inclinações desequilibradas, indignas de confiança, sujeitas à corrução e ao erro. O pecado de Adão, o pecado original da raça humana, seria responsável por tão precária situação. Mas a Adão se contrapõe Jesus. A graça de Cristo remedeia o desequilíbrio. Portanto o cristão tenderá, e isto na razão direta do nível de suas aspirações religiosas, a comportar-se de modo ascético, rompendo com o princípio do prazer indiscriminado, inimigo da vida cristão. O caráter ascético do Cristianismo tem se exprimido sob diversas formas históricas. A vida do monge, o monaquismo, surge no século IV, em quase sincronia com a conversão do Império Romano ao Cristianismo. A expressão "padres do deserto", aplicada aos primeiros monges, traduz uma das notas essenciais dessa forma de ascese: a recusa dos papéis sociais normais e quotidianos, a fuga do mundo. Os monges são a princípio anacoretas ou eremitas, isto é, solitários. Mas o aparecimento de cenobitas ou solitários não tarda. Daí nascem os mosteiros, as abadias, os conventos. No Ocidente, o monaquismo recebe sua codificação (ou "racionalização") praticamente definitiva, com a Regra de São Bento, no século V.

32. O Catolicismo, pelo menos desde o princípio da Idade Média, encara a vida monástica, a ascese extramundana, como um tipo, na verdade como o tipo de vida ideal, o mais seguro para os aspirantes à santidade ou mesmo à salvação. Os votos monásticos, pobreza, castidade, obediência, dariam acesso a um "estado de perfeição", em tese preferível ao casamento ou, em geral, às atividades intramundanas. Mas, ainda em terreno católico, convém observar que certas concepções radicais de ascese, levando, entre outras coisas, à condenação total do sexo, mesmo no casamento, a um exclusivo vegetarianismo, etc., têm sido sistematicamente condenadas como heréticas. Vivendo no mundo, casando-se, gerindo seu patrimônio, cumprindo seus deveres de estado, o fiel comum poderá salvar-se, embora sem o "virtuosismo" e a segurança do monge. O monaquismo é aconselhado, mas importam as disposições pessoais de cada um; não é indispensável à salvação.

33. Mas não se pode dispensar um mínimo de ascese (se é que ainda se trata de ascese propriamente e weberianamente dita), se não se quer viver em "estado de pecado" e correr o risco da eterna condenação. A doutrina católica dos sacramentos facilitaria a vida do comum dos fiéis. Weber se refere ao "ciclo essencialmente humano dos católicos: pecado, arrependimento, relaxamento, novo pecado". Isto é, a Igreja não hesita em reconciliar pecadores e em reiterar a absolvição. A recepção dos sacramentos pareceria substituir o esforço ascético. A tradição católica tem salientado a diferença entre preceitos ou mandamentos, obrigatórios para todos, e conselhos, para usos mais restritos. Viver pobremente se recomenda, como seguro caminho de salvação, mas não se impõe. Cria-se deste modo uma religião de massa, para o comum dos fiéis, contraposta à religião de elite dos monges e assemelhados.

34. Voltando agora a Lutero, notemos o fato capital de que a Reforma, desde o princípio, rompeu com a concepção católica e medieval do ascetismo. No dizer de Weber,

Incondicionalmente nova era a convicção de que o cumprimento do dever, no âmbito das ocupações ("Berufe") intramundanas, fosse o conteúdo supremo que jamais pudesse ser assumido pela atividade moral do homem. Assim foi que, inevitavelmente, a atividade quotidiana adquiriu um significado religioso e daí deriva o sentido da vocação ("Beruf"), que é a expressão do dogma, comum a todas as denominações protestantes, que rejeita a distinção católica entre preceitos e conselhos. O único meio de viver de uma maneira agradável a Deus não está na superação da moral da vida intramundana pela ascese monástica, mas exclusivamente no cumprimento, dentro do mundo, dos deveres correspondentes à posição que a existência impõe ao indivíduo dentro da sociedade, deveres que se tornam assim a sua vocação ("Beruf") (fr90).



35. Em outras palavras, o Protestantismo, em todas ou praticamente todas as suas variedades, rejeita as idéias católicas de um sacerdócio especial dentro da Igreja e de uma vida monástica separada da vida do comum dos fiéis e portanto do mundo. Ascetismo, se ainda houver, terá de ser, necessariamente, intramundano.

36. Mas a posição de Weber, com relação a Lutero, apresenta ambigüidades e beira a contradição. Por um lado, Lutero teria sido o primeiro não apenas a pregar a vocação, isto é, a ética do trabalho, profissão, ou ocupação dentro do mundo, mas também o primeiro a empregar, em sua tradução da Bíblia, a palavra vocação ("Beruf") no sentido de tarefa ordenada por Deus ("eine religioese Vorstellung: die einer von Gott gestellten Aufgabe").

37. Muito embora, como ele reitera, "essa qualificação ética da vida profissional intramundana, tenha sido uma das conseqüências mais importantes da Reforma e da ação de Lutero em particular" a verdade é que, desde o ponto de vista da formação do espírito do capitalismo, Weber faz severas restrições ao Reformador. Certo é a ele que se deve a intramundanização da ascese, pois, para ainda citar Weber, "o efeito da Reforma, como tal, em contraste com a concepção católica, foi aumentar a ênfase moral e a premiação religiosa do trabalho profissional intramundano".

38. Isto posto, a idéia de vocação, em Lutero, permaneceria meio medieval. Faltava-lhe aquele radicalismo na rejeição do mundo, que representa o tipo ideal do ascetismo. De tal modo que, ainda de acordo com Weber,

Lutero não chega a estabelecer uma concepção fundamentalmente nova do relacionamento, pelo menos de um relacionamento que se apoiasse em princípios fundamentais, entre a ocupação profissional e os princípios religiosos. [...] Para ele a noção de vocação permanece em sua forma tradicional. O homem está obrigado a aceitar a sua vocação como se esta lhe adviesse de um decreto divino ao qual deve conformar-se. Tendência que predomina sobre a outra noção, também presente, de que a atividade profissional é a tarefa, ou melhor dito, a tarefa por excelência, a missão atribuída por Deus ao homem (br57).



39. Só um pequeno matiz de significado parece separar essas duas tendências, do qual decorreriam conseqüências importantíssimas para o destino do mundo. A primeira consiste na aceitação conformista do decreto divino, com a execução rotineira do trabalho profissional. A segunda, implicando que na atividade profissional se ache a missão por excelência do cristão, levará à racionalização da atividade e ao aumento constante de sua produtividade. Mais adiante, Weber dirá que na raiz da atitude luterana mais conservadora estaria um imperfeito expurgo dos meios mágicos da salvação. "O católico e mesmo o luterano" possuiriam acesso a sacramentos capazes de "reparar horas de fraqueza e de irreflexão" (br81), pois "Lutero não desejava eliminar os últimos vestígios da magia sacramental" (br178).

40. A grande força espiritual do capitalismo moderno não se encontra então no Luteranismo. "Será então preferível", continua nosso autor,

considerar como mais decisivas as formas de protestantismo nas quais seja mais fácil perceber o relacionamento entre vida prática e espiritualidade [...] É o que aliás já destacamos a propósito do papel desempenhado pelo calvinismo e pelas seitas protestantes no desenvolvimento do capitalismo.



41. Mas esta tarefa fica reservada para o capítulo seguinte. Trata-se aqui de encerrar as considerações sobre a concepção de vocação em Lutero, o que nosso autor, ao que parece querendo agradar a gregos e troianos e prevenir objeções, não faz sem diversas considerações teórico-metodológicas. Uma primeira diz respeito ao próprio caráter da obra dos Reformadores. Pois

Esses homens de modo algum foram os fundadores de sociedades de "cultura ética" nem os paladinos de reformas humanitárias ou de programas culturais. A salvação das almas - e só a salvação das almas - constituiu o eixo de suas vidas e de suas realizações. Os resultados éticos, as manifestações práticas de suas doutrinas, nada mais foram que as conseqüências de motivos puramente religiosos [...] conseqüências muitas vezes muito afastadas de seus propósitos e às vezes mesmo em contradição com eles (fr102).



42. E será que estamos aqui diante de uma concepção "idealista" da história? Weber parece pedir calma. Por um lado, diz ele, devemos nos desfazer da concepção de que "a Reforma possa ser deduzida, enquanto 'historicamente necessária', a partir de transformações econômicas" (fr103). Por outro lado,

Está fora de questão sustentar a tese, tão absurda e tão dogmática, segunda a qual o "espírito do capitalismo" (sempre no sentido provisório que atribuímos ao termo) decorre apenas da Reforma, chegando-se às vezes ao ponto de afirmar que o capitalismo, enquanto sistema econômico, é sua criação. Para refutar essa argumentação, basta pensar que determinadas formas de organização capitalista são bastante mais antigas do que a Reforma. Muito ao contrário, nossa única preocupação consiste em avaliar em que medida as influências religiosas contribuíram, qualitativamente, para a formação de um tal espírito e, quantitativamente, para sua expansão através do mundo; trata-se de definir que aspectos concretos da civilização capitalista decorreram da Reforma. Diante do complicado intercruzamento de influências recíprocas entre bases materiais, formas de organização social e política e dos conteúdos espirituais da Reforma em suas diferentes fases, é forçoso começar pela pesquisa das possíveis "afinidades eletivas" entre formas de crença religiosa e ética profissional. Ao mesmo tempo, deveremos elucidar, na medida do possível, de que maneira e em que direção o movimento religioso, em decorrência dessas afinidades eletivas, influenciou o desenvolvimento da civilização material. Só quando esse ponto for esclarecido com suficiente precisão, é que poderemos tentar avaliar a parte que cabe aos motivos religiosos e a que se deve atribuir a outros motivos na gênese da civilização contemporânea (fr103-4).



43. A longa citação se justifica por tratar-se de uma das passagens mais decisivas e controvertidas sobre a metodologia de próprio Weber. Depreende-se do texto e do seu contexto que, para nosso autor, a Reforma não é causa única do capitalismo moderno, nem do seu "espírito". Sem ser única é entretanto fator fundamental e indispensável; é causa sine qua non e da Reforma procedem os rasgos essenciais do capitalismo e mesmo, a este estreitamente associada, do que hoje em dia se denomina "modernidade". Tendo dito tudo isso, o Professor Weber - e com ele tantos de seus discípulos e comentadores contemporâneos - dá a impressão de que ficaria ofendido, se se dissesse que atribui primazia aos fatores ideacionais ou religiosos no desenvolvimento da "civilização"...



44. Gênese da Ascese Intramundana: Predestinação e Angústia - Chegamos agora à segunda parte do livro, "A Ética Profissional do Capitalismo Ascético" e, nela, ao seu primeiro capítulo, "Fundamentos Religiosos do Ascetismo Leigo". E, sem mais delongas, abordemos outro conceito central da obra de Weber: predestinação. Ora, diz nosso autor, "sendo pouco provável que essa doutrina seja hoje em dia familiar aos homens cultos, o melhor é recorrermos à autoridade da Confissão de Westminster de 1647". E esta, numa formulação lapidar, entre outras coisas diz o seguinte:

Capítulo III (sobre os decretos eternos de Deus), no.3: Por decreto de Deus e para manifestação de sua glória, certos homens são predestinados à vida eterna, certo outros são preordenados à morte eterna.



45. Predestinação então significa que Deus, sem nenhuma consideração anterior do merecimento da criatura, destinou infalivelmente alguns homens à salvação, enquanto outros, por causa exclusiva da maldade deles, desde toda eternidade Deus sabe que irão para o inferno. Com os primeiros, o Senhor manifesta misericórdia. Com os outros, exerce justiça. A predestinação é portanto qualquer coisa de infinitamente simples e ao mesmo tempo de infinitamente complicado.

46. E o que têm a ver essas elucubrações teológicas, perguntará um homem culto contemporâneo, com o problema da gênese do capitalismo ou de seu espírito? Para começarmos a perceber essa possível relação, devemos pensar em primeiro lugar que a salvação da alma concebia-se como a questão decisiva para o homem do "ancien régime", isto é o homem da pré-modernidade. anterior à Revolução Francesa, à Revolução Industrial, à secularização que ainda em nossos dias parece acentuar-se.

47. Embora a predestinação esteja longe de ser um dogma exclusivo do Calvinismo, neste ela parece assumir uma centralidade que não possui noutras formas de religião, estando nele - bem como em certas seitas puritanas, sobre as quais se falará adiante - associada a um processo radical do que aqui denominaremos dessacramentalização. Voltemo-nos, mais uma vez, para o texto da EPEC:

Em sua patética desumanidade, esse pensamento marcou o estado de espírito de toda uma geração que se entregou a sua grandiosa coerência, gerando, em cada indivíduo, o sentimento de uma inaudita solidão interior. Naquilo que, para um contemporâneo da Reforma, era a questão decisiva de sua vida: a eterna felicidade [...] ninguém podia ajudá-lo. Nenhum pregador, pois o eleito só em seu próprio espírito podia entender a palavra de Deus. Nenhum sacramento, pois embora os sacramentos houvessem sido ordenados por Deus para aumentar sua glória, devendo assim ser escrupulosamente observados, não eram meios de obtenção da graça, mas apenas manifestações exteriores da fé. Nenhuma igreja, pois embora se afirmasse que "fora da Igreja não há salvação", no sentido de que aqueles que se mantivessem fora da Igreja nunca poderiam fazer parte do grupo dos eleitos, a Igreja visível incluía condenados entre seus membros. [...] Finalmente, nem mesmo Deus. Porque mesmo Cristo morrera apenas pelos eleitos. Isto, a abolição completa da salvação pela Igreja e pelos sacramentos (que o Luteranismo não tinha levado até as últimas conseqüências), constitui a diferença radical, decisiva, do Calvinismo com relação ao Catolicismo (br72).



48. Chegamos aqui a uma passagem fundamental de toda a obra de Max Weber. É que aqui se exprime o que há de mais fino e sutil em sua filosofia da história, que ele concebe como a passagem da magia à racionalidade da ascese intramundana, ou à racionalidade pura e simples, ao menos em seu berço associada ao ascetismo puritano. É a superação da ação que podemos chamar ora mágica, ora afetiva, ou ainda rotineira ou tradicional, que, sob o impulso da energia religiosa (e não de qualquer fator material ou infra-estrutural), dá lugar à ação racional. Assim chega a seu ponto final o grandioso processo de evolução que domina toda a história do Ocidente, senão da humanidade como um todo. Ou, no dizer de nosso autor,

Assim, na história das religiões, chega a seu ponto final o vasto processo de desencantamento do mundo que começara com as profecias do Judaísmo antigo e que, em concerto com o pensamento científico grego, rejeita todos os meios mágicos de chegar à salvação como superstições e sacrilégios (fr117; it163).



49. Porém tratemos mais em detalhe da ligação entre predestinação e ética do trabalho, a qual, como já sabemos, não é mais que a própria ascese intramundana vista por outro ângulo. Notemos em primeiro lugar o cuidado com a glória de Deus, que também representa ponto central do Calvinismo. Como diz Weber,

O serviço exclusivo da glória de Deus encontra sua primeira expressão no cumprimento das tarefas profissionais exigidas pela lei da natureza. [...] O trabalho a serviço do bem comum exalta a glória de Deus e é portanto por Ele desejado.



50. Além do que o trabalho incessante "dissipa a dúvida religiosa e dá a certeza da graça". Pois a fé verdadeira, a "fé eficaz", "deve ser comprovada por seus resultados objetivos". Atingimos assim outra noção weberiana fundamental para a compreensão, do ascetismo não apenas calvinista, mas também, como logo veremos, das seitas batistas. Trata-se da comprovação (ou ainda prova, verificação, constatação, em alemão "Bewaehrung"), que corresponde à concepção das boas obras não como causa, mas como sinal ou, como diríamos em certa terminologia metodológica, "indicadores", do estado de graça.

Ao mesmo tempo que as boas obras são absolutamente inúteis como meio de obter a salvação - o eleito sendo uma simples criatura, tudo que ele possa fazer fica infinitamente distante do que Deus exige - elas são também indispensáveis como sinal de eleição. São meio técnico não propriamente de adquirir a salvação, mas da libertação da angústia da salvação (fr132).



51. A ênfase nos resultados objetivos da fé, junto com a recusa de todo prazer ou gozo espontâneo e com o abandono de todo sentimento, leva à racionalização geral da vida do indivíduo:

A conduta moral do homem médio foi assim despojada de seu caráter não planejado e assistemático e sujeita, como um todo, a um método consistente. [...] Somente uma reflexão contínua poderia obter vitória sobre o estado de natureza. O cogito, ergo sum de Descartes foi adotado pelos puritanos com essa reinterpretação ética. Foi essa racionalização que deu à fé reformada sua tendência ética peculiar (br82).

52. Aí se encontra, para Weber, a origem do desenvolvimento capitalista. Aí, nessa ascese intramundana que racionaliza, que enfeixa num todo sistemático todos os comportamentos e todas as ações do indivíduo. Aí e, no que há de fundamental, somente aí, apesar dos vários outros fatores acessórios ou até indispensáveis (tais como a invenção, sem dúvida anterior à Reforma, da contabilidade racional). Weber, em todo o resto da longa - e, por que não dizer, tediosa e rebarbativa - seção dedicada ao Calvinismo do capítulo sobre os "Fundamentos Religiosos do Ascetismo Laico", insiste muito no caráter racional e sistemático do ascetismo calvinista, ou, noutras palavras, em seu caráter plenamente racional, que vem a opor-se, segundo ele, ao caráter mais mágico-sacramental do Catolicismo e, até certo ponto, do próprio Luteranismo.

O desencantamento do mundo - a eliminação da magia enquanto técnica de salvação - não foi levado tão longe pelo catolicismo como pelo puritanismo. O católico (e em certa medida o luterano, pois Lutero não quis eliminar até o último vestígio a magia sacramental) tinha a seu dispor a absolvição de sua Igreja para compensar sua própria imperfeição [...] que proporcionava alívio para a monstruosa tensão à qual o seu destino condenava o calvinista, sem evasão possível nem a mínima atenuação. [...] O Deus do calvinismo requeria não boas obras isoladas, mas uma vida inteira de boas obras coordenadas em sistema. Não havia lugar para o vai-e-vem católico e verdadeiramente humano entre pecado, arrependimento, penitência, absolvição, seguidos outra vez de pecado (fr134).



53. A partir de um determinado ponto do capítulo, a comprovação - "Bewaehrung" - torna-se cada vez mais importante, ofuscando a predestinação, e isto não sem riscos de contradizer as longas e laboriosas digressões de nosso autor sobre as sutilezas da teologia calvinista. Ouçamo-lo:

A conseqüência do método a que Calvino, diferentemente de Lutero, obrigou os fiéis, foi a cristianização da vida inteira da pessoa. Para bem compreendermos a atuação do Calvinismo, não devemos perder de vista o efeito decisivo desse método sobre a vida prática. De um lado constatamos que, justamente, só esse elemento era capaz de exercer uma tal influência; de outro lado, várias outras denominações [além do Calvinismo] podiam atuar no mesmo sentido, com a condição de que suas motivações éticas se assemelhassem num ponto decisivo: a doutrina da comprovação.



54. A predestinação, afinal, vem a ser dispensável na cadeia de raciocínios que liga a ética protestante à ética do trabalho. E o capítulo sobre os "Fundamentos Religiosos da Ascese Intramundana" não termina sem copiosas considerações sobre três outras variedades de Protestantismo, que Weber, em diferentes medidas, também considera ascéticas. A expressão "Pietismo" designa um conjunto de movimentos religiosos, de origem ora luterana, ora calvinista, tendo em comum constituírem espécies de aristocracias dentro das igrejas. Reagem contra a religião de massa, a favor de igrejinhas ("ecclesiolae") de crentes conscientes das exigências de sua fé. Podem comparar-se a movimentos católicos atuais, do tipo da Ação Católica ou dos "Focolari".

55. Simplesmente como reação à massificação da fé, o Pietismo traz nova ênfase às idéias de vocação e ascese. Mas, Weber não mostra muita simpatia pelos movimentos que se enquadram sob essa denominação. Pois tendem também a substituir a angústia da salvação - fonte da racionalização radical da atividade intramundana - pelo sentimento do estado de graça. Ora, o sentimento, as efusões místicas, na medida justamente em que tomam o lugar da ascese racionalizadora, eqüivalem à prática sacramental e representam virtual retorno à magia.

56. De modo geral, pode-se dizer que o Pietismo foi mais favorável ao espírito do capitalismo do que o Luteranismo, porém menos do que o Calvinismo. O mesmo vale para o Metodismo, cujo defeito, em termos weberianos, está na provocação metódica do sentimento da salvação, quase como os pentecostais provocam, por muitos cânticos e orações, a visita do Espírito Santo. Ora, tudo o que se manifesta pelo sentimento escapa à pureza da razão. Toda a sociologia de Weber o que mais é, afinal de contas, do que a história do domínio cada vez maior da razão, expresso em formas de ação livres de qualquer sentimentalismo ou sensualidade?

57. A análise das seitas batistas, cujo protótipo são os Quakers surpreende, pois Weber prefere desconhecer todos os seus aspectos "afetivos" para concentrar-se no fato de seguirem o padrão da "believer's church" [...] comunidade de pessoas crentes e redimidas, e somente destas; em outras palavras, não uma igreja, mas uma "seita" (br102), o que implicava que

Cada comunidade batista pretendesse ser uma igreja "pura", isto é, que exigisse de seus membros uma conduta irrepreensível. [...] Só um indivíduo que vivesse de acordo com sua consciência podia se considerar como regenerado.[...] Neste sentido, as "boas obras" eram causa sine qua non.



58. A predestinação podia ser rejeitada pelos batistas, como de fato foi. Não assim porém o caráter especificamente metódico, isto é, racional, da atividade do fiel no mundo. Weber, sobre essas seitas, é praticamente tão otimista quanto sobre o Calvinismo mais estrito. A comprovação da graça pelos êxitos ascéticos não é menor entre os batistas do que entre os calvinistas. O que significa que se situam no mesmo plano de desenvolvimento histórico:

As seitas batistas, junto com os predestinacionistas - especialmente os calvinistas estritos - desenvolveram a mais radical desvalorização de todos os sacramentos como meios de salvação e realizaram assim, até as últimas conseqüências, o desencantamento religioso do mundo (br101).



59. Vamos ainda exprimir, com as próprias palavras de Weber, a conclusão geral do capítulo:

Decisiva para nossas considerações foi a concepção do estado de graça religioso, comum a todas as denominações, como um estado que libera o homem da condenação que incide sobre o mundo. Mas a posse desse estado não podia ser garantida por meios mágico-sacramentais de qualquer espécie, pelo alívio da confissão ou por obras pias isoladas, porém apenas pela comprovação, derivada de uma forma de existência, de um comportamento específico e peculiar, sem nenhuma contestação diferente do estilo de vida do homem "natural". Daí derivava, para o indivíduo, a motivação para o controle metódico do seu estado de graça, aplicado à direção de sua vida, a qual ficava assim impregnada pela atitude ascética. [...] Essa racionalização da direção da vida (Lebensführung) dentro do mundo, por causa do outro mundo, foi conseqüência da concepção da profissão do Protestantismo ascético (br108-9).



60. Ascese, Acumulação, Paixão - No último capítulo da EPEC, "A Ascese e o Espírito do Capitalismo", Weber, além de voltar a temas já extensamente tratados no decorrer do livro e que, de um ponto vista puramente metodológico, deviam ter sido esgotados nos capítulos anteriores, parece também perguntar-se que nexo, finalmente, será que existe entre ascese e espírito do capitalismo. Se faltar esse nexo, todo livro ruirá, por falta de conseqüência entre as premissas e a conclusão. Argumentemos assim. Admitida a importância da vocação intramundana, isto é, da ética do trabalho, no Protestantismo; admitida a posição central da ascese intramundana nas igrejas e seitas de inspiração calvinista e batista; admitido tudo isso, será que daí se segue o espírito do capitalismo moderno? Ele todo? Em parte? Nada dele?

61. Vejamos o que diz Weber:

O ascetismo intramundano do Protestantismo - com essa expressão é que podemos resumir o que dissemos até agora - opunha-se poderosamente ao espontâneo gozo das riquezas e restringia o consumo, especialmente o consumo de luxo. Em compensação, libertava psicologicamente a aquisição de bens das inibições da ética tradicional, rompendo os grilhões que aprisionavam a ânsia de lucro, com o que não apenas a legalizou, como também a considerou (no sentido aqui exposto) como diretamente desejada por Deus. [...] E, o que foi ainda mais importante: a valorização religiosa do trabalho vocacional intramundano, infatigável, constante e sistemático, como o mais alto instrumento de ascese e, ao mesmo tempo, como a prova mais segura, mais evidente de regeneração e de fé verdadeira, constituiu a mais forte alavanca que se possa imaginar da expansão dessa concepção de vida que aqui denominamos espírito do capitalismo. A combinação dessa restrição do consumo com a irrestrita procura de riqueza, tem um resultado prático evidente: o capital se forma através da compulsão ética à poupança.

62. Este capítulo, e portanto o livro, não termina porém sem ainda duas espécies de considerações. Uma delas se refere ao já nosso conhecido receio de Weber com relação aos patrulheiros ideológicos de sua época. Assim é que em seu último parágrafo, nosso autor, com seu coquetismo habitual, pergunta se

Será necessário protestar que nosso projeto não foi absolutamente o de substituir uma interpretação causal exclusivamente materialista por uma interpretação espiritualista da civilização e da história que não seria menos unilateral? Ambas pertencem ao domínio do possível; mas na medida em que não se limitem ao trabalho preparatório e em que pretendam trazer conclusões, tanto uma como outra prejudicam a verdade histórica.



63. Mas a história verdadeira é que apesar de todos os seus desmentidos e restrições, Weber não deixou de tirar as suas conclusões. Pois, no decorrer do capítulo, não faltam, somando-se ao que já foi citado, passagens como as que se transcrevem em seguida:

À medida que se foi estendendo a influência da concepção de vida puritana - e isto, naturalmente, é muito mais importante do que o simples fomento da acumulação do capital - ela favoreceu o desenvolvimento de uma vida econômica racional e burguesa. Era esta a sua mais importante e, acima de tudo, a sua única orientação coerente, tendo assim representado o berço do moderno homo oeconomicus. [...] Um dos elementos fundamentais do espírito do capitalismo moderno, e não apenas dele, mas da própria modernidade ["sondern der modernen Kultur"], a saber, a conduta racional fundada sobre a idéia de vocação, nasceu do espírito da ascese cristão - foi isto que nosso estudo quis demonstrar.

64. Outra série de considerações diz respeito ao que, para usar uma expressão em moda no final do século XX, chamaríamos de o fim da história. Lembremo-nos que para Weber o sentido da história, o que perpassa praticamente todos os seus escritos, está na passagem da ação tradicional, ou rotineira, ou afetiva, ou emocional, ou mágica (tudo isso para Weber acaba dando no mesmo) à ação racional, à pureza do conceito, que existe em si e para si na apreensão e desenvolvimento metódico de suas virtualidades. O que então poderá acontecer depois deste estágio? E isto tanto mais porque, como ele diz, "o cuidado com os bens exteriores, que, segundo a opinião de Baxter, devia pesar nas costas dos santos como um leve manto que se podia a qualquer instante retirar, esse manto a fatalidade transformou num jaula de aço". E, o que é ainda mais grave, representando inclusive o equivalente weberiano da alienação marxista:

Ao mesmo tempo em que a ascese pretendia transformar o mundo, sobre ele desenvolvendo toda a sua influência, os bens deste mundo adquiriam sobre os homens um poder crescente e inelutável, poder tal que nunca antes havia sido conhecido. Hoje em dia o espírito do ascetismo religioso escapou da jaula? Definitivamente? Ninguém sabe...



65. Mas se a ascese religiosa e o cuidado com os bens deste mundo puderam divorciar-se na proporção mesma em que pareciam unir-se tão intimamente, torna-se lícito também perguntar se o espírito do capitalismo, ou, simplesmente o capitalismo, alguma vez precisou da ajuda desse ascese...

66. E como se passasse diretamente de Marx às teorias do fim da história e da pós-modernidade, como se Lênin e o socialismo real - que Weber, evidentemente, conhece só em seus princípios - não tivessem afinal passado de um parêntese sem o menor significado histórico (a não ser que as alusões fiquem no plano da alegoria), Max Weber, sem se comprometer com a tese que alguns lhe querem atribuir sobre um eventual reencantamento do mundo, declara que, efetivamente,

Ninguém ainda sabe quem, no futuro, habitará na jaula nem se, no fim desse gigantesco processo, aparecerão profetas inteiramente novos ou se ocorrerá um poderoso renascimento de pensamentos e ideais antigos ou se, no caso em que nada disso aconteça - dominará uma petrificação mecânica, enfeitada por uma espécie de vaidade convulsiva.



67. Referindo-se aparentemente a Werner Sombart, Weber falava, na "Introdução", da "noção ingênua de capitalismo", que o acreditaria baseado no "impulso para o ganho, a ânsia do lucro, do lucro monetário o mais alto possível", o que, continua, "não tem nada a ver em si com o capitalismo". Isso de tal modo que "a superação dessa noção ingênua de capitalismo" pertenceria "ao ensino do jardim da infância da história da cultural". A paixão é assim excluída da história, em proveito da razão pura.

68. Cabe aqui perguntar se o próprio Weber o que fez não foi substituir uma noção ingênua, a que, pertencente ao jardim da infância, faz derivar o capitalismo da simples ânsia de lucro, por outra não menos ingênua, pertencente à Escola Dominical, que o faz derivar da simples ética do trabalho, presumivelmente associada à ascese intramundana, isto é, à rejeição do mundo dentro do mundo, das igrejas reformadas.

69. Certo, estas notas para a leitura de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo não pretendem, como já se disse, apoiar ou refutar. O que se teve em vista foi não mais do que seguir a lógica da argumentação de Weber. Feito isto, pode-se questionar se, para que uma ética desse origem ao capitalismo moderno, bastaria que ela encarasse com simpatia a vocação, o trabalho, a ascese dentro do mundo. Tal ética deveria não apenas premiar êxitos ascéticos no mundo, mas êxitos diretamente econômicos, considerando os negócios como arena privilegiada da ascese.

70. Weber, é bem verdade, considera que o capitalismo só indiretamente foi conseqüência da "ética protestante". Já vimos como para ele "Os resultados culturais da reforma foram em boa parte conseqüências imprevistas, não desejadas, muitas vezes divergentes e opostas ao que os reformadores desejavam." (br60-1). Citações desse teor poderiam ser multiplicadas. Mas mesmo com essa ressalva, continua difícil entender como o capitalismo pôde originar-se de uma ética que considera a acumulação como algo de torpe - sem que nesse ponto haja desacordos substanciais entre católicos e protestantes. Na realidade, a ética da vocação ou do trabalho jamais quis dizer, no pensamento de qualquer um dos grandes reformadores ou de seus discípulos, devotamento à acumulação do capital. Como assinala outro grande autor, R. H. Tawney, que se ocupou com esta questão

Qualquer compromisso entre a Igreja e a idolatria da riqueza, que é a verdadeira religião das sociedades capitalistas, é tão impossível quanto foi conciliar a Igreja com a idolatria do Estado no Império Romano.



71. A origem do capitalismo tem de ser buscada noutro lugar. Os ensaios de sociologia religiosa de Max Weber aparecem como um grandioso fracasso. Tão grandioso quanto sua erudição, ou seus sutilíssimos raciocínios, a cuja sedução só com dificuldade se resiste; ou quanto a sua pretensão de ter descoberto o segredo da "força mais significativa de nossa vida moderna: o capitalismo".

72. Considerando que, na origem do capitalismo "a relação causal é, certamente, a inversa daquela sugerida pelo ponto de vista materialista", Weber parece incidir na mesma falta de que acusa a "doutrina do mais ingênuo materialismo histórico, de que tais idéias se originam como um reflexo ou como superestruturas de situações econômicas" (p34).

73. E não haveremos de voltar ao mais ingênuo materialismo histórico, se considerarmos que tudo bem pensado, parece bem mais realista do que a de Weber a posição daqueles autores que, enumerando as conseqüências do processo de acumulação, salientam como esta

Afogou os fervores sagrados do êxtase religioso, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. [...] Dissolvem-se as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de idéias secularmente veneradas; as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes de se ossificar. Tudo o que era sagrado é profanado...

NOTAS:

Roberto Motta*- Professor Titular do Departamento de Ciências Sociais, do Curso de Mestrado em Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.



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