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27 de março de 2009
Educação de casa vai à praça
Autor(a): Terezinha Machado



Cresci ouvindo de meus pais este ditado. A educação da minha geração vinha de “berço”, como se costuma dizer. Os pais, a todo momento, não perdiam a oportunidade de ensinar boas maneiras, bons modos. Pedir licença, por favor, cumprimentar, respeitar o espaço do outro, tudo isso era ensinamento de casa.

Até mesmo a discrição se aprendia em casa, minha mãe dizia: “O que se ouve em casa não deve ser comentado na rua”. Meu pai complementava “Não faça aos outros aquilo que não deseja para si” ou “O meu direito termina quando começa o direito do outro!”

Conceitos simples, mas que são de validade eterna, não têm vencimento. Até hoje balizo meus atos por estes princípios educativos de minha infância.

Em todo o meu tempo de magistério, venho assistindo a decadência desses princípios familiares que norteavam a ética, a moralidade e o relacionamento entre as pessoas.

O reflexo do que se vê nos lares vem à praça, ou seja, chegam à escola. O aluno hoje não tem mais aquele respeito e amor pelos seus professores, talvez, numa sociedade capitalista se respeite mais àqueles que ocupam funções que lhes dêem um salário alto e o poder.

Quão longe está o professor deste patamar: salário dos mais baixos e nenhum poder. Pode-se argüir, mas se não tem poder continua com autoridade na sala de aula. Pergunto aos milhares de pares, espalhados por este Brasil imenso: existe, de fato, esta autoridade na sala de aula? O aluno, realmente, respeita o professor como alguém que tem mais conhecimento, mais experiência de vida, que tem um saber para lhe passar?

Ah, nostalgicamente, suspiro. Não é mais assim, os pequenos são incentivados, muitas vezes, pelas próprias famílias a inquirirem seus professores de uma forma desrespeitosa.
Não conseguem enxergar valor agregado social na tarefa do Professor.

Este artigo não tem a finalidade ser uma apologia do “Pobre Professor que ganha pouco e ainda é desprezado nesse mister por uma sociedade”. Ao contrário, trata-se de um pedido de reflexão sobre a necessidade de se redimensionar e se reformular conceitos sobre o exercício do magistério.

Necessita-se de uma nova política pública que devolva à Classe dos Professores a dignidade perdida.
Os professores são obrigados a terem mais de uma fonte de trabalho para poderem, com dignidade, sobreviver com salário tão baixo. Isto acarreta um problema financeiro que está se tornando um grande complicador na vida deste profissional. Por contar com baixos salários nas várias fontes, não desconta Imposto de Renda na fonte. Conseqüentemente, na época de declarar seus rendimentos ao “Leão Faminto”, tem que pagar uma verdadeira fortuna, 27.5% de seus rendimentos anuais. Ora, matematicamente, isto representa mais de três meses de salário só para acalmar o Leão.

Pode parecer àqueles leitores que não são Professores que este detalhe nada tem a ver com a Proposta da Coluna, reflexões em Educação.

Prezado Leitor, está enganado. Dentro da Educação, trabalhamos com Teorias Educacionais Piagetianas, Vygotskyanas que nos mostram como a questão da auto-estima é preponderante no desenvolvimento de um ser humano.

Pergunto, como pode o Professor entrar numa sala de aula, tranqüilo, satisfeito, sabendo que “estourou” o cartão de crédito, está no fim do limite especial de sua conta bancária e ainda tem que pagar a alta parcela do Imposto de Renda?”

Quem inventou a frase que “Magistério é sacerdócio” já deve ter morrido, com certeza. Veria quão catastrófica foi para a classe de magistério essa visão. Porque a partir dela, se é sacerdócio, é sofrimento, por que pagar bem a essa classe? Escuto dizerem: ser professor, só se for por amor. Será que é assim? E o amor paga as contas de água, luz, condomínio e o Imposto de Renda?

E a história que surgiu na década de 80, do século passado, a professora primária que passou a ser tia: por que isso? Ah, tudo tem uma explicação, naturalmente e nenhuma delas beneficia o Professor. Pense, caro leitor, por que essa nova denominação? Carinho, afetividade? Até acho que para as crianças isso seja verdade. Mas para quem inventou essa distorção profissional de professor para uma denominação familiar de Tia, não creio que tenha sido a afetividade o motor da ação. Pensemos mais um pouco, Tia é irmã do Papai ou da Mamãe, logo nem precisaria ser paga, mas se receber alguma coisa, já está bom, não é?

Amigos leitores, espero, sinceramente, que possamos ainda neste início de século XXI ver um início de bom senso voltar a campear na Política sobre a questão do Magistério. Sei que há uma outra classe tão sofredora como a dos Professores, a Classe dos Médicos, passam pelos mesmos transtornos financeiros.

Saúde, Educação e Habitação, cresci sabendo que esse era o tripé que sustentava uma Nação que quisesse ser forte e se desenvolver.

Acho que alguma cosia deu errado, até tenho alguma idéia de onde começou a dar errado, mas não me cabe nessa coluna tratar deste enfoque.

Também não acho que Greve resolva alguma coisa. Como diretora de Escola que fui durante vinte anos, descobri que a única greve que traz lucro é a de professores. Não se gasta luz, água, merenda escolar e ainda se pode cortar o ponto dos grevistas. Se for funcionário público ainda pode ter seus futuros pedidos de transferência “abortados” se constar em sua Ficha Funcional que foi participante de Greve.

Lamentável, profundamente lamentável. Busquemos o problema do fracasso escolar. Por que não se olha de frente para ele? Será que a causa vai ser sempre apontada para o despreparo do professor para ensinar ou do aluno para aprender? Será que ninguém neste país, que a mídia que gasta páginas e páginas com problemas de violência, de corrupção, de problemas com a nossa Seleção de Futebol, não há espaço para se tratar com prioridade a Causa da Educação?

Sim, porque a Causa da Educação, o problema do fracasso escolar está atrelado ao bem estar de seus profissionais.
Por acaso, as escolas que pertencem ao ranking de melhores escolas têm professores mal pagos? Não, sabemos que não. Estes profissionais são pagos muito bem, aliás, merecem receber bem. Isto lhes dá segurança, tranqüilidade. Resultado: ótimo desempenho em sala de aula. Como todos podem comprovar.

Leitores, a luta por uma Escola de Qualidade não passa somente pela melhoria de condições para os Profissionais de Educação, certamente que não. Precisa-se pensar com mais respeito, dignidade e entender que sem este profissional atendido em suas necessidades básicas, não teremos como começar a levantar as questões múltiplas que assolam a área da Educação.

Vamos nos unir em prol da melhoria da Educação brasileira. Chega de tentar “tapar o sol com a peneira”. Ou o Sol está grande demais ou a peneira que é pequena demais.

Mudanças já!


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