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27 de março de 2009
Relações entre comunicação, tecnologia e educação.
Autor(a): Terezinha Machado


É fácil falar sobre comunicação, educação e tecnologia. Difícil é se ter a dimensão exata de cada conceito imbricado na teia de relacionamentos num ecossistema permeado de variações de falantes, comunicadores utilizando as várias ferramentas que o mundo moderno dispõe. Existe um imaginário que vai sendo tecido à cada nova intervenção de novos falantes. Na sala de aula, costumo dizer que estamos “costurando” um saber coletivo, com várias “janelas”, enriquecendo o hipertexto que emerge durante a aula.
O objetivo dessa aula é permitir a reflexão sobre as mediações que ocorrem entre cada elemento dos sistemas comunicativos. Comparando com o ecossistema global, teríamos o estudo das relações entre grupos sociais, organizações e entre os próprios indivíduos que os compõem.
Faz-se necessário saber do que é constituído esse relacionamento, que linguagens utiliza, que representações fazem do mundo que os cerca e as narrativas que vão se tecendo e que interagem com o cotidiano de cada um.
Entrando no texto do link citado: “ (...)Segundo Ismar de Oliveira Soares (2002), foi Jesus Martín-Barbero quem introduziu o debate sobre este novo conceito de ecossistema comunicativo. Este novo locus comunicacional estaria alicerçado em duas novas dinâmicas surgidas nas sociedades contemporâneas: a incidência contínua dos meios tradicionais e o impacto das NTIC na vida cotidiana. Para Martín-Barbero os ecossistemas comunicativos estão se tornando tão estratégicos e vitais como o ecossistema ambiental.
Por isso, mais que o uso das tecnologias, está se tornando vital o sentimento de conexão às redes de informação que formam os múltiplos ecossistemas de comunicação. No entanto, além do sentimento, é fundamental a perspectiva de formação e de oportunidades que este ‘estar’ ou não conectado implica. É visível o desnível relacionado às diferenças de acesso e compreensão da informação disponível nas redes virtuais, tanto entre pessoas quanto nas organizações. Como resultados, se verificam diferenças também na capacidade das pessoas e organizações em agir e reagir de forma a usufruir dos benefícios alardeados pela evolução tecnológica (SOARES, I. op. cit.). (...)”
Para nós, cabe uma reflexão à cerca da modalidade Educação a Distância: como trabalhar nesta modalidade de ensino, num país com tão grandes diferenças regionais? As poucas oportunidades, de grande parte da população, de utilizarem outras mídias, como a Internet, dificulta em muito a expansão da EaD. Se, ao pensarmos, no grupo populacional do Rio de Janeiro, já percebemos que há um desnível grande em relação ao acesso à Internet, o que se pode deduzir em nível de país?
“(...)Envolvidos nestes estímulos, não percebemos as mudanças que nos cercam e nos desligamos dos conceitos de cidadania que são capazes de nos fortalecer em nossa identidade coletiva. Mergulhamos no ecossistema comunicacional global e deixamos de lado o interesse pelo ecossistema comunitário local. Uma situação agravada pelo fato de que, na realidade dos ecossistemas comunicativos, as NTIC: não estão restritas a uma vontade dos agentes e usuários, mas dependem, na formação para a sua utilização, das condições educacionais, culturais e econômicas que os mesmos detêm no acesso a este bem tecnológico, à capacidade intelectual no manejo do recurso, e das oportunidades existentes em seu cotidiano. (WANDERLEY, 2006, pág. 153) (...)
(...)Ao falar do contexto de mundialização da cultura sob a ótica da comunicação,
Martín-Barbero assinala que ‘Não é possível habitar no mundo sem algum tipo de ancoragem territorial, de inserção local, já que é no lugar, no território, que se desenrola a corporeidade da vida cotidiana e a temporalidade [...] da ação coletiva, base da heterogeneidade humana e da reciprocidade, características fundadoras da comunicação humana, pois, mesmo atravessado pelas redes do global, o lugar segue feito do tecido das proximidades e das solidariedades (2003, p.58 e 59).’
Este texto aponta para a questão da propaganda que tenta formar uma opinião das massas a respeito de várias questões, inclusive a particularidade da propaganda que é levar as massas ao consumo, que acaba sendo prejudicial a todos. Há um vídeo que recebi de uma amiga que fala sobre a questão da mudança de comportamento antecipado, fazendo com que as crianças tenham uma infância reduzida pelo desejo provocado subliminarmente pela propaganda veiculada ao público infantil fazendo com que desejem usar roupas de tal marca, as meninas maquiagem, os meninos trocando o futebol e as brincadeiras ao ar livre pelos novos modelos de celulares e jogos para o computador, cheios de violência. Nesse vídeo, um menino, sentado numa loja de joguinhos eletrônicos, de uns nove anos, responde ao repórter que estava no seu quarto celular e que já estava pensando em outro mais moderno com mais funções.
É pertinente a pesquisa relatada no link: “(...)No entanto, para estudar esta comunicação associada aos vínculos interpessoais é necessário desconstruir o imaginário criado pelos meios de massa. As mensagens veiculadas em massa são orientadas comercialmente para a persuasão, através de uma linguagem enfática própria da propaganda. Essa linguagem midiática está intimamente ligada aos conceitos vigentes de comunicação, cuja ênfase está no conteúdo (bancária) ou nos efeitos pretendidos (persuasiva) (KAPLÚN, 1996).
Percebe-se que, anterior à questão do uso dos meios, está a correta definição da comunicação que possa facilitar os processos de desenvolvimento cognitivo pessoal e as práticas de intercâmbio social. Acredita-se que seja possível lograr êxito neste processo em ambientes sociais menos amplos, onde se exercite a comunicação grupal, mais local e próxima aos seus interlocutores. Não se trata de desprezar a mídia convencional, mas entender que “el medio masivo y el medio grupal son complementarios y el resultado educativo óptimo se logra por la adecuada combinación de ambos” (URIBE 2005, p.
80). Como a comunicação midiática tem uma tendência massificadora, é preciso discutir com os sujeitos a necessidade do fortalecimento dos vínculos locais, objetivando equilibrar o paradoxo global/local. (...)
Precisa-se pesquisar e ler mais sobre as questões de como aplicara as Novas Tecnologias na Educação. Não adianta ser especialista, ter um ambiente tecnológico de primeiro mundo se as relações entre Professor e Alunos não for baseada numa proposta pedagógica que inclua reflexões contínuas sobre a formação dos educandos, levando-os a interagirem de modo produtivo em busca de uma legítima inserção na cidadania. Aprender mais para saber mais e produzir mais, num ambiente saudável e que possa ser a aprendizagem algo levado a sério, para que possa fazer parte da vida. Não há como dividir estudar, aprender e viver. Tudo está na mesma dimensão do viver, faz parte da ação de cada um de nós, nos inserirmos na educação com a bagagem que possuímos, mas de forma positiva, não desperdiçando o tempo dos alunos com falácias a respeito de conteúdos que não tenham significação para a construção de uma vida melhor.
“(...) Segundo Venício A. de Lima, Freire definiu “a comunicação como situação social em que as pessoas criam conhecimento juntas, transformando e humanizando o mundo, em vez de transmiti-lo, dá-lo ou impô-lo” (2004, p.62). Para Freire o homem é “um ser de relações”, que se desenvolve por meio do diálogo constante, porque quem está no mundo, está “com”. Por isso, para haver produção de conhecimento, é necessário pensar “com”, que é bem diferente de pensar “sobre”. “Ser dialógico é não invadir, é não manipular, é não sloganizar. Ser dialógico é empenhar-se na transformação constante da realidade” (FREIRE 1977, p. 43).
Esta esperança de emancipação dos sujeitos por meio da comunicação é fundante da idéia de que todos têm o direito de se comunicar, está na base do exercício da cidadania. Isto porque “se dizer a palavra verdadeira, que é trabalho, que é práxis, é transformar o mundo, dizer a palavra não é privilégio de alguns homens, mas direito de todos os homens” (FREIRE, 1987, p. 78).
Ao emitir uma mensagem em diálogo, o cidadão toma consciência de suas idéias, de seus pensamentos, criando coragem de admiti-los. Ao fazer isto está se colocando no mundo, criando o mundo e definindo quem é. Freire chama atenção para este aspecto humanista no qual deve ser inspirado todo o processo de comunicação, através do qual “fazendo e refazendo as coisas e transformando o mundo, os homens podem superar a situação em que estão sendo um quase não ser e passar a ser um estar sendo em busca do ser mais” (1988, p. 74).
O professor é um comunicador. Educar e comunicar são faces de uma mesma moeda.



“Observando o diagrama, vemos que o Comunicador vai escutar o relato das experiências pessoais e práticas dos destinatários (Emirecs) para, após a formulação pedagógica (semântica que reforça a aproximação com a educação) retornar à eles suas próprias vivências e problemáticas, incentivando a reflexão através da objetivação coletiva do conhecimento subjetivo. Assim, a função do comunicador é a de propor discussões, encaminhar questões e organizar dinâmicas de grupo, promovendo a formulação pedagógica dos conteúdos discutidos, problematizando e colaborando com a sensibilização para o pensamento crítico.” (...)
Por esse modelo de comunicação, percebe-se, com clareza, a importância que é dada ao ouvir. Reparem que esse modelo de comunicação não começa com um Emissor, mas com destinatários, que elaboram o que ouvem, essa escuta é transformada por um educador numa proposta pedagógica que é remetida aos alunos, que por sua vez têm a missão de reelaborar criticamente os conteúdos apreendidos e levar novas ideias para a sua vida.
Ou seja, esse processo educacional nem começa e nem termina na sala de aula. É necessário que se abram as portas da sala de aula para que a VIDA possa entrar e, ao sair, essa mesma vida saia mais enriquecida, transformada por outros pensares e, aí, processada por cada participante da sala de aula, é devolvida à sociedade.
“(...)O conceito de educomunicação tem sido discutido por profissionais da educação
a distância principalmente após o surgimento das comunidades virtuais de aprendizagem e da propagação da educação a distância mediada por computador.
É nas comunidades virtuais, onde se encontra “um ideal de relação humana desterritorializada, transversal, livre” (LÉVY, 1993, p.130) que a educação e a comunicação dialógica se encontram para manifestar sua força em nosso século. A consolidação de um paradigma cooperativo do conhecimento só é possível através do diálogo, da comunicação, da interlocução cognitiva. Este fenômeno mundial, resultado do processo tecnológico de interligação por meio do ciberespaço, foi denominado por Pierre Lévy de Inteligência Coletiva (1998). Trata-se de uma ampliação do potencial cognitivo dos seres humanos através das NTIC, que desempenham um papel de coestruturadoras das novas formas de aprender e de conhecer no mundo. Na perspectiva otimista desta integração da inteligência em rede mundial Lévy pondera que [...] se nos engajássemos na via da inteligência coletiva, progressivamente inventaríamos as técnicas, os sistemas de signos, as formas de organização social e de regulação que nos permitiriam pensar em conjunto, concentrar nossas forças intelectuais e espirituais, multiplicar nossas imaginações e experiências, negociar em tempo real e em todas as escalas as soluções práticas aos complexos problemas que estão diante de nós (1998, p. 17).
“(...)Paulo Freire, através de sua “educação como prática da liberdade” (1987, p. 77), entende que “o conhecimento se constitui nas relações homem-mundo, relações de transformação, e se aperfeiçoa na problematização crítica destas relações” (1988, pág.
36), o que ocorre através do diálogo que é “o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o “pronunciam”, isto é, o transformam, e, transformando-o, o humanizam para a humanização de todos” (1988, p. 43). O que Lévy pretende que seja resolvido com a Inteligência Coletiva através das comunidades de aprendizagem do ciberespaço, Freire quer que os indivíduos resolvam no âmbito de suas comunidades populares locais e das práticas educacionais por meio do diálogo, portanto de práticas
educomunicativas.”
Dessa forma , chegamos ao fim do debate promovido pela aula de hoje com a clareza de que só será possível construir a Inteligência Coletiva quando cada ocupar o seu lugar como ponto único nesta rede de educação, dando e recolhendo informação, trocando idéias o tempo todo.
Referências:
BORTOLIERO, Simone. Kaplún, educomunicador biografia de um visionário. Artigo in
Educomídia. Alavanca da cidadania: o legado utópico de Mário Kaplún. MELO, José Marques
de et al (orgs). São Paulo. Cátedra UNESCO, Universidade Metodista de São Paulo, 2006.
FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao
pensamento de Paulo Freire. São Paulo. Moraes, 1980.
_____________. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969.
_____________. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

MARTÍN-BARBERO, Jesus. Globalização comunicacional e transformação cultural. In
MORAES, D. (org.). Por outra comunicação. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 57-86.


SANTOS, Boaventura de Souza. Para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política
na transição paradigmática. V.1. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da
experiência. São Paulo: Cortez, 2000.
SARTORI, Ademilde S.. SOARES, Maria S. P..Concepção dialógica e as NTICs: A
educomunicação e os ecossistemas comunicativos. V Colóquio Internacional Paulo Freire.
Recife, setembro 2005.


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