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05 de fevereiro de 2009
Pensamento e Linguagem
Autor(a): Lev Vygotsky

Fonte: VYGOTSKY, Lev. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

Prefácio

Este livro aborda o estudo de um dos mais complexos problemas da psicologia – a inter-relação entre o pensamento e a linguagem. Tanto quanto sabemos esta questão não foi ainda estudada experimentalmente de forma sistemática. Tentamos operar, pelo menos, uma primeira abordagem desta tarefa, levando a cabo estudos experimentais sobre um certo número de aspectos isolados do problema de conjunto. Os resultados conseguidos fornecem-nos uma parte do material sobre que se baseiam as nossas análises.

As análises teóricas e críticas são uma condição prévia necessária e um complemento da parte experimental e, por isso, ocupam uma grande parte do nosso livro. Houve que basear as hipóteses de trabalho que serviram de ponto de partida ao nosso estudo nas raízes genéticas do pensamento e da linguagem. Com vista a desenvolvermos este quadro teórico, revimos e analisamos acuradamente os dados existentes na literatura psicológica pertinentes para o estudo. Simultaneamente, sujeitamos a uma análise crítica as teorias mais avançadas do pensamento e da linguagem, na esperança de superarmos as suas insuficiências e evitarmos os seus pontos fracos na nossa busca de um caminho teórico por onde enveredar.

Como seria inevitável, a nossa análise invadiu alguns domínios que lhe eram chegados, tais como a lingüística e a psicologia da educação Na análise que realizamos do desenvolvimento dos conceitos científicos nas crianças, utilizamos a hipótese de trabalho relativa à relação entre o processo educacional e o desenvolvimento mental que havíamos elaborado noutra oportunidade fazendo uso de um corpo de dados diferente.

A estrutura deste livro é forçosamente complexa e multifacetada. No entanto, todas as suas partes se orientam para uma tarefa central: a análise genética das relações entre o pensamento e a palavra falada. O primeiro capitulo põe o problema e discute o método. Os segundo e terceiro capítulos são análises críticas das duas mais influentes teorias da linguagem e do pensamento, a de Piaget e a de Stern. No quarto capítulo tenta-se detectar as raízes genéticas do pensamento e da linguagem; este capítulo serve de introdução teórica à parte principal do livro, as duas investigações experimentais descritas nos dois capítulos seguintes. O primeiro estudo (capítulo 5o.) trata da evolução genérica geral dos significados durante a infância; o segundo (capítulo 6o.) é um estudo comparativo do desenvolvimento dos conceitos “científicos” e espontâneos da criança. O último capítulo tenta congregar os fios das nossas investigações e apresentar o processo total do pensamento verbal tal como surge à luz dos nossos dados.

Pode ser útil enumerar brevemente os aspectos da nossa obra que julgamos serem novos, exigindo, por conseguinte, uma nova e mais cuidada verificação. Além da nova formulação que demos ao problema e da parcial novidade do nosso método, o nosso contributo pode ser resumido como se segue:

(1) fornecemos provas experimentais de que os significados das palavras sofrem uma evolução durante a infância e definimos os passos fundamentais dessa evolução;
(2) descobrimos a forma singular como se desenvolvem os conceitos “científicos” das crianças, em comparação com os conceitos espontâneos e formulamos as leis que regem o seu desenvolvimento,
(3) demonstramos a natureza psicológica específica e a função lingüística do discurso escrito na sua relação com o pensamento e
(4) clarificamos por via experimental a natureza do discurso interior e as suas relações com o pensamento.

Não é do pelouro do autor fazer uma avaliação das suas próprias descobertas e da forma como as interpretou: isso caberá aos leitores e aos críticos.

O autor e os seus associados têm vindo a investigar os domínios da linguagem e do pensamento há já quase dez anos, durante os quais as hipóteses de que partiram foram revistas ou abandonadas por falsas. No entanto, a linha fundamental da nossa investigação não se desviou da direção tomada desde início. Compreendemos perfeitamente o quanto o nosso estudo é imperfeito, pois não é mais do que o primeiro passo numa nova via. No entanto sentimos que, ao descobrirmos o problema do pensamento e da linguagem como questão central da psicologia humana demos algum contributo para um progresso essencial. As nossas descobertas apontam o caminho a seguir por uma nova teoria da consciência, nova teoria essa que afloramos apenas no fim do nosso livro.

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