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03 de fevereiro de 2009
A MÚSICA BANIDA
Autor(a): Nelson Pascarelli Filho

“A música absorve o caos e o ordena”
(Nogueira Moutinho)

“A República” de Platão aponta a natureza potencialmente subversiva da música e condena o uso de intervalos específicos, chegando mesmo a sugerir que há ocasiões em que a música pode ser um perigo para o Estado.

Maquiavel, no seu livro “O Príncipe”, doutrinou assim o bom governante: “... devem os príncipes, ao contrário, recompensar quem é ativo e procurar de um modo ou de outro melhorar sua cidade ou Estado. Além disso, precisam manter o povo ocupado com festas e espetáculos, nas épocas convenientes; e como toda a cidade se divide em corporações ou em classes, devem dar atenção a todos esses grupos, juntando-se a eles de tempos em tempos, dando-lhes um exemplo de sua humanidade e munificência – guardando sempre, contudo, sua dignidade majestosa, que não deve faltar em nenhum momento.”

Os músicos e artistas têm um papel fundamental na manutenção do poder exercido pelo príncipe, devendo estar a serviço da “máquina de propaganda ideológica do Estado” porém, com sua liberdade de expressão vigiada, pois tanto podem divertir o povo com sua música como conscientizá-lo a rebelar-se contra o governante.

Na ópera “Nabucco” de Verdi há uma explícita exortação para os italianos lutarem contra os austríacos, exemplo fiel do que é capaz de realizar a genialidade de um artista politizado.
Obras literárias, pinturas e esculturas desafiam a ordem política vigente de forma mais potente e imediata e sempre representaram uma provocação durante períodos de repressão política.

Como pode o caráter abstrato de uma obra musical justificar a censura que lhe é imposta?

Stravinski afirmou que “música só expressa a si mesma”. Poderia a música pelo seu caráter emotivo e ambíguo ser considerada subversiva?

A Música é uma linguagem universal, metafísica pura. Para Hegel a música é a mais subjetiva das artes, manifestação de total interioridade sem determinações objetivas. Por que os líderes dos regimes totalitários temem tanto a subjetividade inerente à música?

Para Schopenhauer, entre todas as artes, a música é fundamental.

No enfoque nietzscheano, a função da música é manter a possibilidade de acesso à realidade da natureza. A música para Nietzsche seria a expressão da realidade interior da vida.

No século XVI, os integrantes do Concílio de Trento, tentaram banir a música polifônica de Palestrina; na Inglaterra Pós-Reforma, Byrd foi proibido de compor musicas sacras para a Igreja Católica Romana.


Na Viena dos tempos de Mozart, a Maçonaria e Aristocracia Austríacas perseguiram Mozart por revelar segredos da Maçonaria na ópera a “Flauta Mágica” e satirizar a aristocracia na ópera “As Bodas de Fígaro” pois eliciou sentimentos revolucionários, Mozart foi considerado “persona non grata”.

No século XIX, Verdi (“Um Ballo in Maschera”) e Auber (“La Muette de Portici) - tiveram que modificar os libretos de suas óperas para escaparem da censura política.

Na Primeira Guerra mundial os ingleses proibiram a execução da música de Richard Strauss. Os alemães fizeram o mesmo para os compositores ingleses e franceses.

Na década de 1930 ocorreu o ápice da censura musical, com a perseguição aos compositores da União Soviética e da Alemanha de Hitler.

Benito Mussolini, no seu artigo “Um Prelúdio a Maquiavel”, escrito em 1924 para louvar o florentino e, assim louvou-se a si mesmo, prendeu o fascismo ao maquiavelismo: “Afirmo que a doutrina de Maquiavel está viva hoje, depois de mais de quatro séculos, já que, se bem que os aspectos exteriores de nossa vida mudaram muito, não se tem verificado profundas variações no espírito dos indivíduos e dos povos.”


Durante os regimes totalitários de extrema direita, Nazismo e Fascismo e na Revolução Russa foram perseguidos os seguintes compositores: Bartók, Castenuovo-Tedesco, Dessau, Eisler, Erwin Schulhoff, Falla, Firsova, Gerhard, Glazunov, Goldschimdt, Gubaidulina, Haas, Hindemith, Kachaturian, Klein, Korngold, Krasa, Krenel, Ligeti, Lutoslawski, Martinu, Panulnik, Medtner, Miaskovsky, Milhaud, Prokofiev, Rachmaninov, Rieti, Schnittke, Schoenberg, Shchedrin, Shostakovich, Stravinski, Toch, Ullman, Weill, Wolpe e Zemlinsky.

Muitos compositores fugiram de seus países. Schulhoff, Ullman, Hass, Krasa e Klein foram mortos. Lutoslawski, polonês, foi obrigado a somente compor música folclórica.

As canções satíricas cantadas nos “Kabaretts” da Alemanha da década de 1920 por socialistas e feministas desafiavam abertamente a moral vigente da época. Kurt Weill, Friedrich Hollaender, Mischa Spoliansky e Berthold Goldschmidt, compositores de Kabarett tiveram que deixar a Alemanha.

Arnold Schoenberg (1874-1951) imigrou para os EUA no final de 1933. Ele compôs “Um Sobrevivente de Varsóvia” que é a música mais poderosa feita contra as atrocidades dos regimes totalitários.

Na Alemanha Nazista proibiu-se de escutar as obras dos judeus Mahler, Offenbach e Mendelssonh - uma arianização musical, como censura póstuma.

Wagner, anti-semita ferrenho, escreveu em 1850 “Os Judeus e a música”, retratando os judeus como ex-canibais, treinados para ser agentes de negócios da sociedade. A obra tinha como alvo o compositor judeu Giacomo Meyerbeer, que fazia grande sucesso na Opera de Paris. Hitler adotou Wagner como seu compositor predileto após assistir a ópera Rienzi, em Linz, na Áustria, no ano de 1906.

No dia 7 de julho de 2001, o aclamado pianista e regente Daniel Barenboim, executou em Tel Aviv, Israel, um fragmento para orquestra de “Tristão e Isolda’ ópera de Richard Wagner, atitude que lhe valeu a execração pública.

A obra de Wagner, símbolo do nazismo, ainda está proibida de ser executada em Israel.

Apesar do mito ariano, que é o nefasto fruto ideológico do eugenismo - a pseudociência criada pelos norte-americanos que serviu de base para justificar os genocídios cometidos por Hitler, Mussolini e Stalin, a Música permanece como verdade, ordenação e expressão máxima da realidade interior da vida, manifestação holística, multicultural que une todas etnias porque se faz sentir além das palavras e dos sistemas ideológicos criados pelo homem.

Ótimo seria se as escolas brasileiras voltassem a incluir na grade curricular o ensino musical desde a educação infantil. Certamente os alunos terminariam o ensino fundamental mais cultos e humanizados e as dificuldades com a aprendizagem da matemática seriam menores.

A exclusão da música dos currículos escolares apoiava-se na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei 5692/71. Porém, dentro da abordagem ideológica, evidencia-se que a Educação Musical, a Psicologia e a Filosofia foram excluídas dos currículos escolares no auge da ditadura militar: Toda subjetividade é perigosa.

As obras musicais e demais manifestações artísticas que foram banidas pelos ditadores eternizaram-se como patrimônio cultural da Humanidade.

A Humanidade triunfou sobre o nazismo e o fascismo, mas não podemos esquecer o que Camus deixou escrito no final do livro “A Peste” :

“O bacilo da peste não morre nem desaparece, fica dezenas de anos a dormir nos móveis e nas roupas, espera com paciência nos quartos, nos porões, nas malas nos papéis, nos lenços – e chega talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acorda os ratos e os manda morrer numa cidade feliz.”

Para vivenciar a paz entre todos os povos é preciso livra-se das mazelas do etnocentrismo e do eugenismo, ter total respeito às manifestações culturais e liberdade de expressão.

“A Criança é o Pai do Homem”, como afirmou Gusdorf, e isto não podemos jamais esquecer. Responsabilidade maior cabe aos educadores, pois eles são formadores da consciência ética no educando, tanto podem semear a paz e a justiça, como propagar no âmbito acadêmico miniditaduras, ideologias fascistas e pseudociências.

Todos os cidadãos com poder de decisão e formadores de opinião devem ficar atentos para que os novos regimes totalitários, travestidos de populismo assistencialista, não retornem para mitigar o direito à liberdade de expressão e cometer crimes contra a Humanidade.





NELSON PASCARELLI FILHO

• Consultor Científico-Educacional. Conferencista.
• Escritor da FTD.
• 16 livros didáticos publicados e adotados em todo Brasil.
• Prof. Titular da SME/ SP.
• Diretor da Pascarelli Sciens, consultoria fundada em parceria com alunos intelectualmente superdotados.
• Pedagogo, Filósofo, Bacharel em Psicologia, Psicanalista; Biólogo com pós-graduação em Microbiologia.
• Palestrante do Rotary Club, Sieeesp, Aprofem/Abitep, Ecoplan/ Sinpeem, Sinpros; OAB, Sabesp, Polícia Ambiental, Universidade São Judas Tadeu, Uninove e diversas Secretarias Municipais e Estaduais de Educação em todo o Brasil.
• Biografia incluída na Wikipédia em educadores brasileiros.

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11 8814-8296













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