Home Artigos

Tamanho do texto: -A +A
17 de novembro de 2008
Escolas desarvoradas
Autor(a): O Estado de São Paulo

Chamar de “revolta estudantil” o surto de violência predatória que transformou a Escola Estadual Amadeu Amaral, do Belém, em uma autêntica tapera é, no mínimo, uma impropriedade de linguagem, pelo simples fato de que não havia nada contra o que se revoltar. Em nenhum momento os estudantes externaram protesto sobre o que quer que fosse, como costuma suceder em revoltas estudantis. E, se houve palavra de ordem que conduzisse aquela turba de vândalos - calculada em 30 participantes e 12 líderes -, ela se resumia no imbecilizante grito: “Porrada, porrada, porrada!”

É sabido de todos e até surrado que as causas genéricas de ocorrências desse tipo passam pela desintegração das famílias, pela quebra dos valores morais da sociedade e pela decadência das relações e comportamentos no meio escolar, quando a figura do professor nem de longe inspira mais o respeito que se lhe atribuía em tempos não tão distantes. Esgarçou-se o tecido em que se confeccionava a autoridade magistral, o ponto de referência em que os alunos podiam se nortear no desafio de apreender, na escola, o indispensável para não serem derrotados na luta por uma vida digna. Em algum momento se deu a ruptura e o respeito cedeu lugar à descontrolada agressividade à menor tentativa de imposição de disciplina. Proliferam nas escolas públicas de segundo grau - talvez as mais atingidas pela decadência geral do ensino em nosso país - relatos de professores acuados, ameaçados, quando não agredidos de fato (e até assassinados) por seus alunos.

É longo o histórico de ameaças, ataques a professores e depredações que as escolas públicas de São Paulo vêm sofrendo nos últimos anos. Segundo a Secretaria Estadual da Educação, do início do ano até setembro foram registradas 50 ocorrências de violência nas escolas. No ano passado foram 180 casos e em 2006, 217.

Os exemplos se multiplicam. Em outubro deste ano os carros de quatro professores sofreram vandalismo no estacionamento da Estadual Herbert Baldus, no Jardim São Bernardo. No dia seguinte a mãe de uma aluna bateu na professora da filha dentro da Rocca Dorvall, em Guaianases. Na mesma semana um rapaz de 15 anos deu um tiro para o alto na frente da Escola Tarcísio Lobo, na zona norte.

Funcionários da Escola Amadeu Amaral apontam a existência de um grupo denominado Primeiro Comando do Amadeu Amaral (PCAA), apontado como o responsável pelo tumulto de quarta-feira. E o delegado titular do 81º DP, André Pimentel, afirma que essa escola tem um histórico de brigas e depredações. Assim, a rivalidade entre duas meninas - uma de 15 anos, vinda há um mês do Brás, e outra de 18, mais antiga na escola - foi o estopim da baderna, como poderia ter sido qualquer outra coisa, a levar estudantes a arremessar pedras e carteiras contra os vidros das janelas da escola, a jogar telhas de amianto do prédio e a fazer outros estragos. Declarou um professor que desde o início do ano os alunos têm quebrado janelas e até tentaram botar fogo na escola, só não o conseguindo graças à intervenção da polícia.

E aqui voltamos ao ponto de partida deste comentário: não havia contra o que se revoltar. Não havia um sistema disciplinar em condições de evitar o processo da deterioração das relações entre alunos e entre alunos e professores porque não havia uma direção da escola com competência para impor respeito. Isso está acontecendo na grande maioria das nossas escolas públicas do ensino médio, por sobre as dificuldades pedagógicas que enfrentam - o que se atesta pelo baixo rendimento que apresentam nos exames de avaliação. O governo precisa desenvolver esforços para melhorar, por meio de reciclagem e treinamento, o nível de eficiência pedagógica dos professores, mas também encetar programas de gestão escolar, para que as unidades de ensino do Estado possam ser bem administradas - no que não se dispensa o exercício da boa disciplina. Pois é de esperar que mesmo os jovens provenientes de famílias desintegradas se adaptem a um convívio civilizado, no ambiente escolar, visto que esta talvez seja a única oportunidade de encontrarem um rumo na vida.

Voltar para lista de artigos

Home > Busca

Digite o que procura: